Segundo consta, o CDS já decidiu que os princípios com que andou pelas feiras nas últimas eleições afinal não funcionaram. Vai, portanto, arranjar outros. O PSD fez o mesmo no ano passado, depois da derrota autárquica: tinham dito que era de “direita” e “liberal”, quis provar que era de “esquerda” e “social-democrata”; tinha feito oposição ao PS, dedicou-se a sugerir pactos ao PS. O que importava era mostrar que não estava “agarrado ao passado”. A famosa frase “estes são os meus princípios, mas se não gostam deles, eu tenho outros” é uma piada de Groucho Marx. No caso da direita portuguesa, porém, não é uma piada: é como as coisas são.

Por detrás disto, estão muitas coisas. A primeira é desespero. As actuais gerações do PSD e do CDS estão a ficar sem tempo para serem deputados, secretários de Estado, ministros. Nos primórdios da geringonça, ainda esperaram voltar rapidamente ao governo à boleia de um acidente financeiro. As políticas do BCE tiraram-lhes essa esperança. Sem os dependentes do Estado, convenceram-se de que nunca arranjarão uma maioria. Daí a procura de atalhos para o poder: arranjinhos com o PS, como propõe o PSD, ou a imitação cínica do folclore esquerdista, como tentou o CDS em Arroios. Se a esquerda tem mais votos, é preciso juntar-se-lhe ou copiá-la.

Esta é uma direita pouco preparada para confrontos. Durante anos, encantada com a tecnocracia pós-ideológica, abandonou às esquerdas a maçada de definir esquerda e direita, e os respectivos ismos. Não é por isso de admirar que a imagem prevalecente da direita seja aquela que é ditada pelas esquerdas, em que ser liberal é desprezar os pobres e ser conservador é viver em 1950. Poderia reagir e argumentar que nenhuns regimes geraram tanta pobreza como os socialistas, ou que ninguém fez mais reformas na Europa e na América, desde a década de 80, do que os conservadores. Mas parece-lhe mais económico continuar a reconhecer à esquerda o direito de arbitrar sobre o bem e o mal ideológico, e adequar-se ao que a esquerda aprova. De resto, julga que o pode fazer: PSD e CDS nunca tiveram concorrentes à direita. As  últimas eleições, ao reforçar o mito do “país sem populistas“, persuadiram-nos de que isso não ia acabar. Ei-los, assim, a dar o eleitorado com inclinações conservadoras-liberais como adquirido, e a permitirem-se uma versatilidade que nem Groucho Marx talvez tenha previsto.

À direita portuguesa, convém talvez estudar um pouco, para se libertar de alguns complexos e ilusões. Acima de tudo, porém, precisa de calma e de lucidez. O ponto é mesmo, como muita gente diz, aprender a falar com a sociedade. Isso, porém, não se faz andando a ver o que está a dar: faz-se com consistência e convicção, até porque é isso que falta às esquerdas. Desde 2015, os parceiros da geringonça rasgaram programas e vivem numa promiscuidade cheia de suspeitas mútuas. Nestas eleições europeias, o PSD e o CDS não acrescentaram a sua votação decisivamente, mas o PS, o BE e o PCP, no seu conjunto, também não, apesar de quatro anos no Estado a cultivar clientelas. Talvez porque o país tenha percebido que nada é fiável no regime das reposições compensadas por impostos e cativações. Ou porque tenha sentido que esta é uma situação política que favorece os mais fortes, os que fazem greve, à custa dos outros, como os utentes do SNS. Contra este regime de incerteza, injustiça e incoerência, compete à  direita oferecer segurança, equidade e coesão: um Estado viável e portanto eficaz nas garantias; uma sociedade onde valha a pena trabalhar, investir e poupar; e uma maioria de governo coerente e identificada com os valores da democracia ocidental. E sim, é provável que os portugueses estejam interessados em ouvir quem lhes proponha isto. Para aqueles que trocam de princípios sempre que o vento muda é que talvez não tenham tempo nem paciência.