Já sabemos, é preciso aprender a viver na pandemia, já que é difícil prever quanto tempo lhe vai apetecer por cá ficar. Como aquele mamarracho antigo, que às vezes fica entalado algures em nossa casa pelo tempo que tarda a desfazermo-nos dele. Um sofá velho, um estrado de cama, a estante sem livros, ou o berço do miúdo que, entretanto, já vai ao WC pelo próprio pé.

Aprendemos a contorná-lo. Fica na sala, ou na dispensa, ou na marquise, ou na entrada. Na garagem vá, para os (a)fortunados. Ao fim de uns tempos, deixamos de o notar. Já não encalhamos lá o mindinho, mesmo descalços à meia luz. Baixa-se a noção de urgência da sua retirada. Do regresso à utilização real do espaço. As vantagens do caminho a direito torna-as, com o desuso menos óbvias. O desvio nem custa assim tanto.

É preciso que ocorra um evento. Uma visita. Arrisco-me a falar num jantar de amigos, que em hipotética figura ainda é permitido. Então regressa a pressa, e a ofensa, por ter de desatravessar o mono do caminho.

Será a vergonha que nos faz ir escondê-lo melhor ou, quiçá, em dias de rebeldia extrema, ir efetivamente encaminhá-lo ao seu final destino. Motivado pelo que for, o resultado é o mesmo. O espaço, de novo desimpedido, traz de volta a clareza do que é e não é tolerável.

Assim estamos nós. A viver (ou morrer) hoje. Vamos a restaurantes e lojas, apressados e desconfortáveis, com o buço constantemente a humidificar e as mãos a pegar do licor de bagaço convertido em higienizante. Tratamos do que é preciso nas Finanças, esperando na rua, à chuva ou sol. Até nos aventuramos a ir tratar de não urgências. Marcações para tirar sinais e limpar os dentes com jatos de alta pressão voltam a ter espaço na agenda. Segue-se como se pode. Não vá a suspensão matar-nos antes da cura chegar.

Mas também não se segue. Há fins que chegam. Porque tinham ou não que chegar, isso já é conversa para outro dia. Mas chegam. Já chegaram, aliás. É essencial atendermos aos nossos doentes. Aos nossos mortos. São riscos que têm de ser tomados, sob pena de se tornar o inaceitável possível. Pior. Sob pena de o tornar tolerável.

É que agora, morre-se por telefone. É uma nova espécie. O pacote inclui deixar de ver a todos que se conhece uns tempos, que podem ser mais ou menos largos conforme a sorte de cada qual, a partir do momento em que se entra no hospital. Ter acesso, enquanto lá se está, a alguma comunicação, mais ou menos fugaz, pesada na mesma balança que dita o que calha a cada um de nós. E a saída, em certas histórias, não é pela porta da frente. O final é rápido. Ou é lento. É silencioso ou ruidoso. Num quarto partilhado. Durante a noite ou com o sol bem alto. Vai-se lá saber. Não há olhos para narrar esta história. Depois embrulha-se a notícia num mais ou menos cuidadoso telefonema à família.

Nascemos sem nada. Diz-se que o nada nos é natural e que assim partimos. Verdade. Mas há algo de fraturante na partida de uma pessoa, que ao senti-lo, não possa olhar nos olhos dos seus e dar-lhes paz. Mostrar que vai.

O motivo é de força maior. Saúde pública. A priorização dos acessos ao hospital. A sobrevivência em desafiantes tempos novos. Sabe-se. Percebe-se. Mas fere. Ataca o humanismo mais nervoso que está lá dentro.

É preciso aprender. Fazer melhor. É de decência que se fala. De tempo, não muito, que se dispõe a uma vida que, chegando ao final, ainda o é. Permitir este tempo. A despedida. Pode ter custos. Sabido. Mas são custos que têm de ser incorridos. Pela humanidade. A dos que partem, certo. Mas também a dos que ficam. A nossa, que amanhã acordamos e precisamos de fazer a nossa vida e garantir que o país não pára. A nós, faz-nos falta a humanidade por inteiro.