Um dia destes pensei em como votariam os antigos líderes do PS nestas eleições presidenciais. Obviamente, o actual líder, José Luís Carneiro, votará em António José Seguro. Mas dos quatro líderes anteriores, desconfio que Seguro será o único a votar em Seguro. Sócrates já anunciou o seu voto em Gouveia e Melo. No caso de António Costa, julgava que também votaria em Gouveia e Melo, mas depois do apoio de Sócrates, estou a inclinado a pensar que já não votará. O mais provável será votar em Marques Mendes, afinal de contas a sua carreira política foi muito beneficiada pela liderança partidária do candidato presidencial do PSD. Pedro Nuno Santos votará, naturalmente, em Catarina Martins.
Os votos dos antigos líderes nas presidenciais mostram o nível de fragmentação dos socialistas. É verdade que há uma tradição de divisão no PS em eleições presidenciais. Muitos se lembram do combate entre Mário Soares e Salgado Zenha e, muito mais tarde entre Soares (de novo) e Manuel Alegre. Mas a disputa pessoal não é fragmentação política. O PS dividiu-se, mas não era um partido fragmentado. Hoje é.
A fragmentação começou com a liderança de Sócrates e sobretudo o modo como acabou o seu segundo governo. Essa primeira divergência estratégica foi entre uma orientação despesista e uma conversão às contas públicas equilibradas. Como líder do PS, Seguro assumiu a responsabilidade de aceitar as políticas de equilíbrio fiscal impostas pela União Europeia e o FMI. Por isso, foi muito atacado por membros do seu partido. Por exemplo Pedro Nuno Santos na altura dizia que não se devia pagar a dívida externa. As posições de Seguro custaram-lhe mesmo a liderança do partido. Ainda hoje, a conversão do PS a contas públicas equilibradas é mais aparente do que real. Muitos ministros dos últimos governos socialistas nunca concordaram com a cultura das contas equilibradas de Centeno.
Mas a principal causa de fragmentação do PS foi a geringonça. O PS nunca se tinha aliado no passado às extremas esquerdas. Muitos socialistas não gostaram da solução de 2015, mas ficaram calados porque o poder cala. Hoje, o PS está dividido entre quem quer um partido centrista, social-democrata no sentido europeu; e entre aqueles que desejam uma frente de esquerda com o Bloco e com o Livre (e até com o PCP). Foi esse PS que concorreu nas eleições em Lisboa. Mas o PS que apoia Seguro é outro: é o PS centrista. No passado, houve lutas pessoais; mas agora há divergências estratégias e ideológicas que fragmentam os socialistas.
A greve geral da semana passada ainda vai fragmentar mais o voto socialista. Favorece os votos nos candidatos do Bloco e do PCP e prejudica a unidade das esquerdas à volta da candidatura de Seguro. Esta fragmentação pode levar ao pior resultado de sempre de um candidato presidencial apoiado pelo PS. O problema é o PS, não é António José Seguro.