Para alcançar a desejada autonomia estratégica no domínio da defesa e reduzir a dependência dos sistemas de armas americanos, a União Europeia está a investir muito dinheiro no desenvolvimento da indústria europeia de armamento. Mas a indústria de defesa é, por definição, um sector internacional, então quão europeias são as empresas de defesa europeias? É claro que nas empresas que estão em grande parte nas mãos do governo, como os grandes estaleiros navais, como o italiano Fincantieri e o francês Naval Group, ou a empresa privada francesa pur sang Dassault, as estruturas de propriedade são claras. Mas como é nos grandes e privados campeões da indústria de defesa europeia?

Os três grandes e mais atractivos intervenientes europeus no domínio da defesa são actualmente os grupos privados BAe Systems, com sede no Reino Unido, Leonardo, com sede em Itália, e Rheinmetall, com sede na Alemanha. O trio deverá ter um volume de negócios em 2024 de 28 mil milhões para a BAe Systems, 21 mil milhões para a Leonardo e 10 mil milhões para a Rheinmetall, respetivamente. Estas três campeãs dominam a Europa em quase todas as áreas de defesa e segurança: em termos de aviões de caça, tanques e artilharia, veículos blindados, tecnología espacial, munições, etc. Estão presentes em todos os mercados e são — como fornecedores das forças armadas — de vital importância para quase todos os Estados-membros da UE e/ou da NATO.

Mas quão europeias são estas empresas, na verdade? A Rheinmetall, que anteriormente (até à Segunda Guerra Mundial) pertencia à antiga fabricante de armas alemã Krupp, tinha uma estrutura acionista bastante internacional no final de 2024, com cerca de 28% de investidores institucionais americanos: incluindo a Blackrock, a Morgan Stanley, o Bank of America e a Goldman Sachs (cada um com cerca de 5% das ações e direitos de voto). Aliás, estes 28% são inferiores à participação total dos investidores institucionais americanos em 2022, que era então de 40%, percentagem que foi significativamente diluída e reduzida em dois anos em favor de um grupo internacional de acionistas privados mais pequenos.

A Leonardo, da qual o estado italiano detém ainda cerca de 30%, encontra-se numa situação semelhante. Dos 50% das ações geridas pelos investidores institucionais no consórcio, os fundos americanos representam nada menos do que 57%, o que representa uma participação total na empresa italiana de 28,5%. Aqui encontramos também a Blackrock, juntamente com outros fundos americanos, como a Capital Research & Management e o Vanguard Group. Aliás, os investidores institucionais da Europa e do Reino Unido gerem apenas cerca de 12% do total das ações da Leonardo.

A situação na BAe Systems é também comparável. Os interesses institucionais americanos controlam quase 44% da empresa britânica, com a Blackrock, o Vanguard Group, a Capital Research & Management, além da Fidelity, a Invesco e outras. Como alguns fundos americanos estão parcialmente sediados em Londres e, por isso, a sua participação é considerada britânica, o interesse real dos investidores americanos é quase certamente ainda maior.

Mas vamos também analisar os mercados de venda dos três. De que mercados geográficos dependem? A Leonardo obteve 26% da sua receita nos EUA em 2024, em comparação com 56% na Europa e no Reino Unido juntos. A BAe Systems dependeu das vendas dos seus produtos nos EUA para uns impressionantes 44% no ano passado, em comparação com os 40% na Europa e no Reino Unido juntos. A Rheinmetall espera quadruplicar as suas vendas, atualmente relativamente modestas (estimadas em 5%), para os EUA para cerca de dois mil milhões nos próximos anos, em parte através de uma aquisição recente no país. A empresa alemã também assinou uma série de programas de parceria com empresas americanas como a Lockheed Martin, a Northrop Grumman, a Honeywell e, esta semana, com a Anduril (um novo fabricante de drones).

Vale também a pena notar que estas três empresas também trabalham em conjunto onde vale a pena. Por exemplo, a Rheinmetall e a Leonardo vão produzir em conjunto mais de 1.200 tanques e outros veículos blindados em Itália, e a Rheinmetall e a BAE Systems estão a trabalhar em conjunto para produzir armas e armamento para tanques no Reino Unido. As três detêm também um grande número de participações noutras empresas de defesa em quase todos os Estados europeus membros da NATO ou países da UE.

Das três, a Rheinmetall é a mais pequena, mas está fortemente empenhada no crescimento nos EUA. A empresa alemã e a empresa italiana são possivelmente as mais europeias, enquanto a BAe Systems está mais próxima dos interesses americanos. É evidente que todas as três campeãs da defesa têm grandes interesses comerciais nos EUA, enquanto os investidores institucionais americanos acumularam grandes participações em cada uma das três empresas. A indústria de defesa americana e a contraparte europeia estão, portanto, intimamente interligadas neste caso.

É também evidente que estas três empresas criaram o espaço (também devido às circunstâncias geopolíticas) para disseminar e expandir os seus interesses em ambos os lados do oceano. A UE deve, por conseguinte, proceder com cautela. É também do interesse da Europa manter esta margem de manobra para o sector da defesa, porque uma indústria de defesa europeia que perdesse o seu mercado nos EUA devido, por exemplo, a uma postura demasiado radical da UE ou após o fracasso das negociações sobre os direitos de importação, seria uma grande perda para todos.

A indústria de defesa europeia é altamente dependente do mercado americano e dos investidores americanos. Em suma, o sector parece, assim, ser actualmente um dos pilares das relações transatlânticas. Enquanto as ameaças de guerra continuarem a aumentar e o apelo por mais armamento continuar a soar, os três campeões serão ricos. Porque, no final de contas, it’s just business, man…