É o novo mantra da esquerda portuguesa: para avaliar se Portugal é um país com problemas de segurança, não podemos, de maneira nenhuma, jamais, em tempo algum olhar para as percepções — temos de olhar só, apenas e exclusivamente para os números. O país, ao que parece, está firmemente dividido. De um lado temos a direita, sempre maléfica e composta exclusivamente por demagogos, que explora os sentimentos dos eleitores. Do outro lado temos a esquerda, inevitavelmente angelical e composta exclusivamente por especialistas renomados, que pretende educar o povo recorrendo a estatísticas e a factos irrefutáveis. A esquerda até tem uma bíblia em forma de ranking: dia sim, dia sim é invocado um estudo internacional que atesta que Portugal é o sétimo país mais seguro do mundo e o quinto mais seguro da Europa.

Este ranking tem um nome: “Global Peace Index”. Mas também tem, lamentavelmente, vários problemas para aqueles que o usaram por estes dias como uma bazuca política. A começar por este: um dos indicadores que ajuda a definir a posição de cada país no ranking chama-se, imaginem, “Nível da percepção de criminalidade na sociedade”. Os organizadores do “Global Peace Index” explicam no estudo que “a base para determinar as percepções de criminalidade” é a seguinte pergunta, que foi feita a uma amostra representativa de habitantes dos diferentes países: “Sente-se seguro a andar sozinho à noite na cidade ou área onde vive?”. É uma divertida ironia: para combater o argumento da direita de que há uma “percepção de insegurança” na sociedade portuguesa, a esquerda invoca um ranking que se baseia, precisamente, em “percepções de criminalidade” e em “sentimentos” de segurança.

Há mais. Este estudo, que nos coloca como “um dos países mais seguros do mundo”, baseia-se em muitas outras “percepções” além desta. O indicador “Nível de crime violento”, por exemplo, é determinado por um grupo de especialistas que responde à seguinte pergunta: “É provável que o crime violento represente um problema significativo para o governo e/ou para as empresas nos próximos dois anos?”. Como, apesar da existência de bolas de cristal, ainda não se inventou uma forma científica de determinar quais serão os acontecimentos que ocorrerão no futuro, somos forçados a concluir que esta avaliação terá, inevitavelmente, de ser feita com recurso às “percepções” dos analistas que foram consultados para o ranking.

Outro indicador importante do “Global Peace Index”, o da “Instabilidade política”, também é definido por especialistas que respondem a perguntas sobre o futuro, como por exemplo esta: “Qual é o risco de se verificar um nível significativo de distúrbios sociais nos próximos dois anos?”. Cá está: mais percepções, mais opiniões e mais sentimentos.

Naturalmente, este estudo também usa dados quantitativos, como aqueles que contabilizam o número de presos ou de polícias. Há um “mas”: é que alguns desses números não têm absolutamente nada a ver com aquilo que debatemos em Portugal quando falamos em segurança. Aliás, esta é uma boa altura para notar que o ranking não se chama “Global Security Index”, chama-se “Global Peace Index”. Porque, precisamente, este ranking não é sobre os países mais seguros do mundo — é sobre os países mais pacíficos do mundo. A diferença é importante porque uma parte substancial dos indicadores usados para classificar os países avaliam o risco ou impacto de eventos como guerras civis, atentados terroristas ou conflitos externos. Vários países europeus desceram no ranking do último ano porque a guerra na Ucrânia os obrigou a gastar mais dinheiro nas Forças Armadas, o que os prejudicou no indicador “Militarização”. Apesar disso, a Grécia subiu no ranking pelo facto de ter melhorado as relações diplomáticas com a Turquia, o que a beneficiou no indicador “Relações com países vizinhos”.

Aliás, as “Relações com países vizinhos” têm maior peso na avaliação de um país do que o número de presos ou o “Nível da percepção de criminalidade na sociedade”. Ou seja: para o ranking que se transformou na tábua dos Dez Mandamentos da esquerda, a segurança de quem anda na rua no Martim Moniz ou na Estrela é menos importante do que a nossa capacidade coletiva de, enquanto povo, impedir Nuno Melo de invadir Olivença à frente de um esquadrão de cavalaria.

Tudo bem espremido, o argumento da esquerda neste debate resume-se a uma fórmula muito usada nos parques infantis de todo o país: “A minha percepção é melhor do que a tua”. Honestamente, não havia razão para esperar melhor do que isto.