Desde que se percebeu que o verdadeiro ministro da Saúde era Mário Centeno que deixou de haver forma de mascarar a evidência: o subfinanciamento do SNS, agravado, e muito, pelo erro das 35 horas, gerou sucessivas situações de ruptura que, apesar do estoicismo dos profissionais, começou a ser impossível esconder. Como ao mesmo tempo as expectativas criadas pelo “fim da austeridade” legitimaram reivindicações antes impensáveis, a um dia a dia já penoso e a listas de espera a crescer vieram somar-se as greves.

Quando se chega a este ponto a tentação de qualquer primeiro-ministro é substituir o ministro da Saúde. No passado, que me lembre, foi uma medida que por duas vezes conseguiu aliviar a tensão política: quando Cavaco Silva trocou Leonor Beleza por Arlindo de Carvalho e quando José Sócrates deixou cair Correia de Campos para entrar Ana Jorge. Das duas vezes ficámos também, como país, muito pior servidos, pois os dois eram muito piores governantes — só que não faziam ondas.

António Costa terá tentado repetir a habilidade despedindo Adalberto Campos Fernandes e chamando Marta Temido, mas desta vez não só conseguiu ficar com uma equipa pior na Saúde, como acrescentou controvérsia à controvérsia e sal à ferida. Na verdade Marta Temido não tem feito outra coisa desde que chegou ao Ministério do que atirar gasolina para cima dos muitos fogos que já ardiam e ainda atiçar alguns novos. Para além de cultivar um estilo que até um seu colega de partido (Carlos Silva, o líder da UGT) define como sendo de “lhe resvalar o pé para a chinela“.

O pano de fundo da manobra foi o de ensaiar uma “viragem à esquerda”. António Costa acreditou, não se entende bem porquê, que os portugueses querem “acordos de regime” sobre temas como a descentralização (que ninguém sabe bem o que é nem entendeu o que será) ou o plano de infraestruturas (que ninguém sabe quando e com que dinheiro serão construídas), mas não querem entendimentos sobre o funcionamento do serviço público a que dão mais importância, o Serviço Nacional de Saúde. Aí, nessa área crucial, prefeririam um “corte ideológico”. Aí, prefeririam uma guerra partidária à moda antiga.

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