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Costuma-se dizer ‘no news, good news’. Com efeito, uma viagem aérea, que corre bem, não merece a atenção jornalística, mas um avião que se despenha é, obviamente, matéria de interesse mediático. Há omissões que são explicáveis pela irrelevância dos factos, mas também há exclusões que não são inocentes.

Com um sugestivo e provocador título – “Omissão censória” – o Dr. António Bagão Félix escreveu uma corajosa carta à direcção do Público: “Entre as sofisticadas formas censórias de (não) dar notícias, está a omissão. Quando um assunto ou facto não é divulgado, tende a não existir. A ausência no vosso jornal de qualquer alusão à ‘Caminhada pela Vida’, que se realizou no sábado, 23/10, em dez cidades do país é um exemplo dessa inexplicável omissão. Fosse uma jornada pró-eutanásia, pró-aborto ou com meia-dúzia de pessoas numa qualquer iniciativa LGBT, muito provavelmente seria devidamente noticiada, como se verifica amiúde no Público. Enfim ‘critérios democráticos’ de um jornal que se auto-intitula de referência ética e deontológica.”

Infelizmente, a omissão do Público não é a excepção à regra, mas a regra sem excepção: quando se trata de uma iniciativa pró-vida, com a participação de tanta gente jovem (ou, talvez, por isso mesmo…) e a nível nacional, há uma espécie de conspiração do silêncio, como se de certas causas, como a defesa da vida, e instituições, como a Igreja católica, só interessassem as notícias negativas.

O Correio do Vouga, de 13 de Outubro passado, publicou um excelente artigo sobre a dolorosa questão da pedofilia: “A (im)penitência da Igreja em Portugal”. O seu autor, Padre Manuel J. Rocha, é Vigário Geral da Diocese de Aveiro e começa por referir alguns dos principais marcos da cruzada da Igreja contra os casos de pedofilia no seu seio. Neste doloroso processo, teve papel determinante Bento XVI, que não só agravou as penas canónicas para este tipo de crimes, como procedeu à sua aplicação, de que resultaram, entre outras, a laicização de um ex-cardeal norte-americano e a prisão e julgamento de um ex-núncio apostólico, que morreu antes de ser proferida a sentença condenatória. Decerto, nenhum outro Estado levou tão longe, quanto a Santa Sé, a luta contra o abuso de menores.

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O Padre Manuel Rocha também lembra que “o Papa Francisco carrega o mesmo pecado sobre os seus ombros e, no seu caminho do Calvário, tem sido incansável em enfrentar este problema das mais diversas formas, renovando as Normas do Papa Bento XVI”. Foi por iniciativa do actual Papa que, em cada diocese, se criou “uma ‘Comissão Diocesana de Protecção de Menores e Pessoas Vulneráveis’, que tem como objectivos contribuir para difundir uma cultura de prevenção, dar instrumentos de informação e de formação e estabelecer protocolos de procedimentos, seguindo as normativas civis e canónicas, bem como as orientações da Santa Sé e da Conferência Episcopal.”

Como o Vigário Geral de Aveiro reconhece, “o problema não se resolve com comissões, documentos ou boas intenções”, mas também não pode, ou não deve, ser restrito apenas à Igreja. Graças ao inquérito Sauvé pode-se dizer que, “das 5,5, milhões de crianças abusadas em França, 96% foram abusadas em ambientes que não têm nada a ver com a Igreja, mas ninguém fala sobre o drama e as responsabilidades por esses 96% dos abusos”. Parece que unicamente interessa denunciar actos de pedofilia alegadamente cometidos por eclesiásticos, “culpando a Igreja, como normalmente tem acontecido … e dá jeito.”

Esta transferência da culpa pessoal para a entidade institucional tem também que se lhe diga, porque parece ser um ‘privilégio’ eclesial. Não faria sentido, por hipótese, proceder, criminal ou civilmente, contra a RTP, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, ou a Ordem dos Médicos, pelo facto de terem sido condenados, por crimes de pedofilia realizados à margem da sua actividade profissional, um locutor da televisão estatal, um diplomata e um médico, respectivamente. Mas, quando uma criança é confiada a uma escola, ou à Igreja, e alguém dessa entidade comete abusos, a instituição é também responsável, porque responde pela idoneidade, não só técnica mas também moral, do seu pessoal. Contudo, o crime, se o houver, é só de quem o comete e de quem, conhecendo essa prática delitiva, a não impediu, podendo-o fazer. Não se tendo procedido, nesse processo, contra essa instituição educativa, nem contra a sua tutela, não seria coerente com essa prática responsabilizar a Igreja pelos crimes de pedofilia alegadamente praticados pelos seus fiéis, sejam eles clérigos ou leigos.

Não se trata de desculpabilizar a Igreja, até porque todos somos Igreja, mas de responsabilizar quem tem culpa: “é verdade que bastava um caso que fosse, e ele mereceria e merece todo o nosso repúdio”. Mais ainda: “Deus clama por justiça no acolhimento às vítimas e às suas famílias e exige responsabilidade dos abusadores. Nisto não há dúvidas’.” Mas a responsabilização individual dos culpados não pode dar lugar à generalização ou à institucionalização da presunção da culpa, como alguns pretendem e, de facto, praticam, como o Vigário Geral de Aveiro teve a ousadia de denunciar, a partir da experiência da sua diocese.

Recebi – conta o Padre Manuel Rocha – um telefonema de um senhor jornalista com a pergunta de sempre, sobre o número de casos de abuso sexual de menores na nossa Diocese. Prontamente o encaminhei para o presidente da nossa Comissão de Protecção, que respondeu à(s) pergunta(s) formulada(s). Como nós, outras dioceses, com certeza. No fim de semana olhei os títulos do tal jornal: ‘Igreja portuguesa recusa revelar dados sobre abuso de menores’ e, mais adiante: ‘Igreja usa técnica da avestruz e tenta amenizar os danos no caso de abuso sexual dos padres’. É possível que algum bispo tente amenizar algum caso, é verdade que a diocese de Aveiro não é a Igreja em Portugal, mas daí até falarmos de ‘Igreja portuguesa …’ e ‘técnicas da avestruz’ … Dá até a impressão de que temos de inventar casos para dizer que somos como os outros … porque a verdade, quando não encaixa nas nossas convicções, até parece mentira.”

Quando em certa imprensa, ideologicamente comprometida, predominam os preconceitos, é difícil informar, com objectividade e isenção, sobre a vida ou a Igreja. As dez Caminhadas pela Vida, realizadas em simultâneo, há um mês, em outras tantas cidades portuguesas, por milhares de jovens, foram silenciadas pelos media, porque ofereciam uma imagem da força e juventude do movimento pró-vida que não corresponde ao estereótipo politicamente correcto. Foi, portanto, a comunicação social politicamente correcta que enterrou a cabeça na areia, qual avestruz, para não ver uma realidade que contradiz o seu preconceito. Também quando se pressupõe a culpa onde há virtude, não se crê na realidade e, portanto, quando os factos não condizem com a expectativa pretendida, não só se recorre à omissão censória como se duvida da verdade comprovada, em benefício da culpa imaginada e, porventura, querida.

Bento XVI, no seu artigo “A Igreja e o escândalo dos abusos sexuais” (11-4-2010), escreveu: “É muito importante opor toda a verdade às mentiras e meias-verdades do diabo. Sim, há pecado e mal na Igreja, mas também há a Santa Igreja, que é indefectível. Também agora há muitas pessoas que humildemente acreditam, sofrem e amam, nas quais o verdadeiro Deus, o Deus de amor, se nos revela.”