No debate de terça-feira, André Ventura tirou a conclusão errada de uma observação certa. A observação certa é que António José Seguro nunca provou, na sua carreira política, ter força perante os seus correligionários, nem é capaz de criticar as políticas falhadas que eles seguiram. A conclusão errada é que, por isso, será um presidente passivo, que “não fará nem bem nem mal”. A direita já cometeu muitas vezes o erro de subestimar presidentes de esquerda. Pagou-o sempre da maneira mais cara.
Todos os presidentes socialistas foram um problema para governos e maiorias de direita, mesmo quando iniciaram mandatos com o apoio da direita, como Mário Soares em 1991, ou sem a sua mais forte oposição, como Jorge Sampaio em 2001. Soares fez a vida negra a Cavaco Silva, e Sampaio sabotou o governo de Durão Barroso e destruiu o de Santana Lopes. Porque é que Seguro, se obtiver a enorme maioria que lhe prometem, seria diferente? A esse respeito, a suposta personalidade de Seguro pode funcionar ao contrário do que se pensa. Admitamos que é fraco. Uma coisa a que um fraco, por definição, nunca resiste são as circunstâncias. E não é difícil de prever circunstâncias que levem Seguro a ser o Sampaio da maioria de direita saída das eleições de Maio.
Reparem bem: não estou a atribuir essa intenção a Seguro. O que estou a dizer é que se ele é tão fraco como dizem, acabará por ir por aí, queira ou não, se as circunstâncias forem propícias. Ora, parte das circunstâncias já são propícias. O estado do país convida o presidente a ser “exigente”, isto é, a constituir-se em provedor-mor do descontentamento. A esquerda não está conformada nem corrigida com a derrota de Maio (por exemplo, ainda não desistiu de ilegalizar o Chega, como se viu esta semana). Se os problemas no SNS e arredores se empilharem, como se estão a empilhar, acusará a actual maioria, paralisada pelas “linhas vermelhas”, de apenas representar um impasse. A partir daí, intimará um presidente Seguro a “resolver” esse impasse, como Jorge Sampaio fez em 2004. Seguro precisaria de muita força e firmeza para se opor a esta deriva. Precisamente o que nos dizem que ele não tem.
O que pode ajudar António José Seguro, no caso de ser eleito, a resistir? Para começar, uma forte votação em André Ventura, que permita a Seguro convencer-se e argumentar que o país não está pronto para a “viradeira”. Só a força da direita, demonstrada pela votação de Ventura, poderá contrabalançar a pressão que a esquerda fará sobre um Seguro vitorioso. Se Seguro tiver a votação que o carnaval antifascista gostaria de lhe dar, não conseguirá persuadir ninguém, a começar por si próprio, de que os seus votos não são um sinal de que a maioria parlamentar faliu e está madura para ser varrida à primeira oportunidade. Digamos que será preciso votar Ventura para ajudar Seguro, se eleito, a ser o presidente imparcial que diz querer ser. Porque se ele é fraco, como tanta gente alega, guiar-se-á apenas, como todos os fracos, pela correlação de forças.
Há quem meta medo ao governo com a votação de André Ventura: se for muito grande, ei-lo “líder da direita”. Ninguém reparou que uma votação muito grande de António José Seguro será pior. Os votos darão a Ventura, quando muito, uns galões simbólicos: a “liderança da direita” não é um órgão de soberania. A Seguro, uma grande votação dará uma autoridade acrescentada como presidente, e deixá-lo-á refém das expectativas e pressões da esquerda. Estas eleições presidenciais vão ser a segunda volta das legislativas de Maio. Ou os eleitores confirmam a decisão de romper com trinta anos de poder socialista, ou começarão a preparar o seu regresso.