Pelo que percebo, há uma grande parte da imprensa que está muito espantada pelo facto da Spinumviva não parecer ter grande efeito nas intenções de voto das próximas eleições.

A explicação mais frequente para este desfasamento entre a opinião publicada e o senso comum é o de que as pessoas comuns são eticamente menos exigentes que a opinião publicada, numa clássica demonstração da diferença entre bom senso e senso comum.

Recorro, como faço frequentemente, a Descartes para me obrigar a olhar para o assunto sem ser a partir da superioridade moral.

“O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída: de facto, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de desejarem mais do que o que têm. E nisto, não é verosímil que todos se enganem; mas antes, isso testemunha que o poder de bem julgar, e de distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens; da mesma forma que a diversidade das nossas opiniões não provém do facto de uns serem mais razoáveis do que outros, mas unicamente do facto de nós conduzirmos os nossos pensamentos por vias diversas, e de não considerarmos as mesmas coisas”.

Tanto quanto entendo, boa parte da imprensa não percebe mesmo como é possível alguém achar normal e saudável que Montenegro recebesse de clientes antes de ser primeiro-ministro e continuasse a receber depois, através da Spinumviva, que era dele, criada por ele e com clientes dele.

A sensação que tenho é a de que a distinção entre uma empresa e os seus donos não é uma distinção intuitiva.

Eu já tive duas empresas de consultoria. Em qualquer delas, como acontece na esmagadora maioria das pequenas empresas deste sector, quando estão no início, a sua base era o meu conhecimento (no caso, de gestão de conservação da natureza, mas podia ser de outros serviços quaisquer), a minha capacidade e os meus contactos.

Note-se que estes três elementos – conhecimentos, capacidades e contactos – são os elementos base de qualquer carreira profissional, não há nada de errado nisso.

Para evitar exemplos como os de Lacerda Machado, vejamos o que torna Mariana Mortágua deputada em 2013. Ana Drago resolve abandonar o parlamento. Francisco Louçã vai buscar uma economista do seu círculo de relações (tinha escrito com ela dois livros, se não me engano), oficialmente por ser economista (isto é, ter conhecimentos) e por lhe reconhecer capacidades. O Bloco faz com que nove pessoas renunciem ao seu lugar de deputado para que Mariana Mortágua o seja, em consequência da sua proximidade social com Francisco Louçã (esqueçamos o percurso de Joana Mortágua, primeiro assessora do grupo parlamentar e depois deputada, porque toda a gente sabe que o facto de ser irmã de Mariana não tem qualquer influência nessa evolução).

Portanto, primeiro ponto, grande parte da opinião publicada está muito escandalizada pelo facto da actividade profissional de Luís Montenegro, e a sua empresa, serem feitas com a base habitual de toda a gente: conhecimento, capacidades e contactos.

O senso comum, muito provavelmente, não vê nisso qualquer questão.

Agora voltemos à distinção entre as empresas e o seus donos.

Quando fiz a primeira das minhas empresas de consultoria, a mais estruturada, fi-lo pedindo dinheiro emprestado aos meus irmãos (sou o nono de dez, o que tem algumas vantagens para este efeito) e envolvendo dois outros sócios.

Frequentemente se diz que os portugueses têm pouco espírito empreendedor, eu não estou convencido disso, os portugueses têm é pouco capital, o que limita muito a sua capacidade de correr riscos.

No meu caso, eu não podia prescindir do meu ordenado como funcionário público sem pôr em risco o dia a dia dos meus quatro filhos e estava fora de causa trabalhar, em simultâneo, para o Estado e para a minha empresa, no mesmo sector de actividade.

Com base no meu conhecimento, nas minhas capacidades e nos meus contactos, a empresa foi evoluindo até ao momento em que me pedem para aceitar o lugar de vice-presidente do Instituto de Conservação da Natureza, evidentemente incompatível com a minha continuidade na empresa.

Se o convite tivesse surgido mais tarde, talvez a empresa já tivesse maturidade – capital, gente e clientes – para continuar sem mim, mesmo que tivesse sido criada por mim, com base no meu conhecimento e nos meus contactos, mas como surgiu quando surgiu, fechei a empresa, consegui devolver o dinheiro aos meus sócios, pagar aos meus irmãos, e fui à minha vida.

Nesse processo o que mais me custou foi o facto de, com a empresa, ter criado uma bolsa de naturalistas, muito bons, sem estudos superiores formais, que eram manifestamente mal pagos no Estado, a quem eu podia ir recorrendo para os trabalhos que iam surgindo.

O que mais me entusiasmava era que lhes pagava de igual para igual, pelo que produziam, sem consideração pela sua formação inicial. Fechando a empresa eles deixariam de ter essa fonte irregular, mas muito bem-vinda, de rendimentos.

Se eu tivesse encontrado uma fórmula de manter a empresa, eu tê-lo-ia feito, porque as empresas, mesmo criadas por uma pessoa, com base no seu conhecimento, nas suas capacidades e nos seus clientes, ganham uma vida própria que lhes permite, em algumas circunstâncias, ganharem autonomia em relação aos seus fundadores (a McDonald’s tem esse nome por causa dos seus fundadores, que não são os fundadores da empresa tal como a conhecemos hoje, para dar um exemplo mais que conhecido).

Tanto quanto sei, e o que sei é o que vai sendo publicado, a Spinumviva morreu como empresa de consultoria de gestão quando Montenegro saiu, mas na prestação de serviços relacionados com a protecção de dados tinha já maturidade suficiente para seguir o seu caminho.

A opinião publicada acha que entrar dinheiro numa empresa, em função de contratos normais no mercado, é o mesmo que entrar no bolso dos seus donos; o senso comum sabe perfeitamente que as receitas de uma empresa não são dinheiro no bolso dos seus donos e, por isso, não percebe o charivari sobre a manutenção de contratos de prestação de serviços, depois do seu fundador ter ido à sua vida e abandonado a empresa.

Talvez estas duas dissonâncias entre o que pensam os que publicam e o que pensam os que votam, afinal, tenha uma explicação simples: demasiados jornalistas e comentadores não sabem bem o que é uma empresa, a relação que tem com os seus donos e como essa relação pode evoluir ao longo do tempo.