Durante anos, o debate europeu sobre a transição energética concentrou-se quase exclusivamente na capacidade de produção: quantos gigawatts de hídrica, bioenergia, solar e eólica instalar, quantos leilões lançar, quantos projetos aprovar. Hoje, a Comissão Europeia reconhece finalmente aquilo que os operadores, investidores e reguladores sabem há muito tempo: sem redes elétricas robustas, a transição energética simplesmente não acontece.
Com a apresentação do European Grids Package e da proposta revista do regulamento TEN-E, a Comissão Europeia assume a dimensão real do desafio. Até 2040, a União Europeia terá de mobilizar 1,2 milhões de milhões (biliões) de euros em redes elétricas, a que se somam 240 mil milhões de euros em infraestruturas de hidrogénio. Não se trata de um luxo tecnológico, mas de uma condição estrutural para sustentar a eletrificação acelerada da economia, integrar volumes crescentes de energia renovável no sistema elétrico, garantir segurança energética num contexto geopolítico cada vez mais instável, e reforçar a soberania política.
A guerra da Rússia contra a Ucrânia funcionou como um choque de realidade. A dependência europeia de combustíveis fósseis importados revelou-se, não apenas um problema climático, mas um risco social, económico e político. Ainda assim, apesar dos progressos dos últimos anos, a Europa continua com uma insuficiência da integração das suas redes entre países, deixando até 45 % das necessidades de interligação transfronteiriça por satisfazer até 2030. O resultado é paradoxal: eletricidade de fontes renováveis disponível que não chega ao consumo, preços da eletricidade mais elevados e competitividade industrial em erosão.
Os números são claros. Sem reforço urgente das redes elétricas, a União Europeia arrisca perder 310 TWh de produção de eletricidade renovável em 2040, ou seja, energia limpa que não poderá chegar aos clientes. Ao mesmo tempo, famílias e empresas europeias continuam a pagar duas a três vezes mais pela eletricidade do que os seus concorrentes nos Estados Unidos ou na China. Não por falta de água, sol ou vento, mas por falta de cabos, transformadores e planeamento.
O novo pacote europeu aponta na direção certa. Propõe uma modernização profunda do sistema elétrico, baseada no planeamento coordenado a nível nacional e europeu, e no recurso a tecnologias digitais capazes de aumentar entre 20 % e 40 % a capacidade das redes existentes, antes mesmo de se construírem novas linhas. As chamadas grid-enhancing technologies podem eventualmente reduzir custos em até 35 % e acelerar soluções num continente onde o tempo passou a ser um factor crítico.
Talvez o sinal político mais relevante seja o reconhecimento de que o verdadeiro bloqueio da transição está no licenciamento. Hoje, um projeto elétrico de interesse comum pode demorar quatro a dez anos a obter licenças e autorizações. O European Grids Package propõe limitar esses prazos a dois anos, ou três nos casos mais complexos, reforçando simultaneamente mecanismos de participação pública. É uma tentativa clara de equilibrar aceitação social com urgência estratégica, algo que a Europa tem falhado repetidamente e tem obrigatoriamente de resolver.
O alargamento do conceito de “infraestruturas estratégicas” ao sistema elétrico é igualmente revelador. Redes inteligentes, armazenamento, eletrolisadores de grande escala e corredores de veículos elétricos passam a integrar o núcleo duro da política energética europeia. A transição deixa de ser apenas elétrica para se tornar sistémica, ligando eletricidade, indústria, mobilidade, dados e computação. Não é por acaso que o debate já inclui explicitamente centros de dados e computação de inteligência artificial: a economia digital será elétrica ou não existirá de todo.
Também nas redes de distribuição, muitas vezes esquecidas no debate público, o desafio é colossal. Integrar milhões de centros electroprodutores renováveis, veículos elétricos e novas cargas industriais exigirá 730 mil milhões de euros adicionais até 2040. Ignorar esta realidade seria condenar a transição a falhar “no último quilómetro”.
A Comissão Europeia estima que um planeamento mais integrado e interligações reforçadas possam gerar 40 mil milhões de euros por ano em poupanças, aumentar o comércio transfronteiriço de eletricidade em 50 % e acrescentar 18 mil milhões de euros ao PIB europeu em 2030. Mas o verdadeiro valor está para além das contas: autonomia estratégica, resiliência e competitividade industrial, segurança de abastecimento e soberania política.
A mensagem de Bruxelas é, finalmente, clara: a transição energética não depende apenas de produzir mais eletricidade a partir de energias renováveis, mas de construir as redes que a tornam utilizável.