A nova doutrina de segurança dos EUA foi publicada na passada sexta-feira, mas já muito se disse e escreveu sobre as posições americanas em relação à Europa. Em particular, o apoio aos partidos populistas e nacionalistas; e os ataques à União Europeia.
Vamos começar pelo primeiro ponto. A Europa pediu esta vingança de Trump. Custa-me dizer isto, mas é a verdade. Uma grande maioria de governos europeus, incluindo governos de centro-direita, nos últimos anos (na verdade, desde o início do século), apoiaram sempre os candidatos democratas contra os republicanos. Não foi apenas contra Trump. Apoiaram Al Gore contra Bush filho, apoiaram Obama contra McCain e contra Mitt Romney. E, obviamente, apoiaram Hilary Clinton, Biden e Kamala Harris contra Trump. Naturalmente, os governos europeus não apoiaram oficialmente os candidatos democratas, mas mostraram com muita clareza que preferiam vê-los eleitos. E desde 2000 que foi assim. Estavam à espera que os republicanos não reagissem?
Como resultado das suas preferências eleitorais, a maioria dos países europeus transformou a relação transatlântica numa aliança com o partido democrata. Foi um erro incompreensível, sobretudo tendo em conta a dependência militar da Europa em relação aos Estados Unidos. Com um presidente vingativo como Trump, a fatura teria que chegar. Chegou agora. Para a administração Trump, a luta política contra a maioria dos governos europeus é a continuação do combate político contra o partido democrata e as suas políticas. Trump olha para a Europa de hoje como aliada dos democratas. Por isso, apoia os partidos populistas e nacionalistas que querem derrubar os governos europeus. Aliás, há nesta atitude uma espécie de integração ideológica entre os Estados Unidos e a Europa, à volta de concepções diferentes de “Ocidente”: o oposto de uma política isolacionista.
Vejamos agora o segundo ponto: a oposição da administração Trump à integração europeia. Esta posição pode tornar-se uma enorme ameaça à União Europeia e marca uma ruptura com a política externa dos Estados Unidos, que sempre apoiaram a integração europeia desde o Tratado de Roma. Mas resta saber se os Estados Unidos vão seguir uma estratégia activa contra a União Europeia e, se o fizerem, se será eficaz.
Mas, também neste caso, a União Europeia se colocou a jeito. Trabalhei sete anos na Comissão Europeia, e não tenho dúvida alguma: em Bruxelas há uma cultura anti-americana. Não é maioritária, mas tem influência em muitas políticas da União Europeia. A política digital europeia foi claramente desenvolvida para tentar enfraquecer as gigantes tecnológicas norte americanas.
A União Europeia, incluindo os Estados-membros, escolheu regular em vez de investir e inovar. Há muitas razões que explicam a ausência de empresas europeias entre as maiores tecnológicas mundiais. Mas, ao contrário do que muitos dizem na Europa, a regulação não é a solução para essa ausência. A regulação europeia foi feita para enfraquecer as Google, Amazon, Microsoft, Apple, Facebook e outras americanas. Veja-se a mais recente multa ao X. É absolutamente ridícula e é uma decisão política. Não gosto de uma Europa que regula, que proíbe, que multa. Gostaria muito de ver uma Europa que inova, que investe, que compete.
Os ataques da administração Trump à União Europeia podem não passar de pressão para mudar a política digital. Se levarem à diminuição da regulação, será bom. Podem, no entanto, reflectir uma alteração profunda da política norte-americana. Isso seria muito mau para a União Europeia, mas também é mau para os Estados Unidos. Os norte-americanos precisam de aliados fortes para enfrentarem a competição com a China. Uma Europa dividida será uma Europa fraca.
Duvido que a oposição à integração europeia seja maioritária nos Estados Unidos, e parece-me que até divide o partido republicano. Mas também desconfio da eficácia de uma política anti-União Europeia a partir de Washington. Não será a administração Trump a decidir os resultados eleitorais nos países europeus. Também não será Washington a decidir a vontade dos países europeus em relação à sua participação na União Europeia.
Todos os países europeus viram o que aconteceu ao Reino Unido depois do Brexit. Meloni partilha muitas ideias com os republicanos de Trump, mas não tem uma política anti-União Europeia. Orban passa a vida a criticar Bruxelas, mas só o faz porque a Hungria está na União Europeia. Vejam se ele se atreve a retirar a Hungria da União Europeia? Orban sabe muito bem que o resultado de um referendo na Hungria seria favorável à integração europeia. E se tentasse retirar a Hungria da União Europeia sem referendo, seria o fim da sua carreira política. O futuro da União Europeia será decidido na Europa. Não será em Washington, nem em Pequim, nem em Moscovo.