Abdicar é um verbo difícil em circunstâncias ditas normais, mas agora torna-se cada dia mais inquietante. De uma semana para a outra damo-nos conta de que já não se trata de abdicar de futilidades ou superficialidades, de deixar de comprar isto e mais aquilo, de deixar de adquirir bens mais ou menos supérfluos. A partir de agora trata-se de começar a prescindir de alguns básicos que até aqui considerávamos essenciais.

Há pessoas que já não têm como pagar a próxima renda e há gente que deixou de ter dinheiro para ir ao supermercado. Os elos mais fracos da cadeia estão a rebentar e todos estamos obrigados a zelar pelos que andam frágeis ou estão mais vulneráveis. Tenho ouvido pessoas, a quem nada falta, interrogarem-se sobre se continuam ou não a pagar às empregadas domésticas e confesso que a dúvida me escandaliza por revelar falta de humanidade.

Continuar a pagar às empregadas domésticas, quando elas estão privadas de poder trabalhar, não é uma opção, é um dever. É certamente um gesto de solidariedade e de reconhecimento do seu valor, mas é acima de tudo uma obrigação porque elas são um dos elos mais fracos da cadeia. Quem tem empregadas domésticas sabe muito bem o privilégio que é poder contar com elas e com o seu trabalho. Aliás, muitos de nós só podemos ter um full time job e até progredir na carreira, por termos alguém na retaguarda, a cuidar da nossa casa e dos nossos filhos. Ou até dos nossos pais.

Se estas pessoas nos são tão úteis e imprescindíveis em circunstâncias normais, como é que agora nos passa pela cabeça descartá-las e deixá-las cair no abismo? Elas são forçadas a abdicar de trabalhar e nós temos que abdicar do seu trabalho, mas isso não nos pode transformar em seres desumanos, oportunistas e hipócritas. Estender a mão e segurar os que estão à beira de colapsar também passa por reconhecer dentro de casa, precisamente quando nos vemos a fazer o trabalho que era feito por uma empregada doméstica, que ninguém tem culpa e é nesta hora que nos cabe proteger os que nos ajudam e, por definição, são mais desprotegidos.

Todos sabemos que a esmagadora maioria das empregadas domésticas trabalham em várias casas para poderem ganhar o dinheiro de que precisam para viver e alimentar a família. Diria, sem margem de erro, que muitas delas vivem em condições precárias, em casas, quartos ou espaços onde agora se vêm confinadas e de onde sairiam a correr se pudessem. Também esta realidade ajuda a perceber que não podemos abdicar de as ajudar e não temos outra opção senão continuar a pagar-lhes o ordenado.

Não são apenas os médicos, enfermeiros e profissionais de saúde que não têm alternativa senão abdicar da sua segurança e proteção e, em muitos casos, abdicar até de voltar a casa e estar com a sua família. Também os governantes e gestores de áreas estratégicas, os ativos da Proteção Civil, as autoridades, os trabalhadores dos supermercados, das farmácias e dos postos de abastecimento de combustível, mais as incontáveis equipas técnicas e tecnológicas que sustentam o ensino à distância, entre milhares de outros profissionais que se mantém ao serviço, todos foram obrigados a abdicar.

Abdicar pode ser uma ação forçada, imposta por alguém ou alguma circunstância exterior, mas também pode ser uma atitude cultivada a partir de dentro. Ditada pela consciência de cada um. E é este desafio individual, esta aposta em prescindir de alguma coisa para que outros não percam tudo, que fará a diferença no futuro imediato. E este é o tempo de perceber o impacto das opções individuais, no coletivo.

Resgatar os outros, que ficaram vulneráveis (ou já o eram muito antes do ‘tsunami’ provocado pela pandemia), não passa por dar esmola. Um contributo é sempre um contributo, e não podemos deixar de contribuir, mas já não basta dar uma vez. Temos que continuar a dar até doer, como dizia a Madre Teresa de Calcutá, que se deu uma vida inteira aos mais pobres entre os pobres, aos mais excluídos entre os excluídos.

Não podemos esperar que a revisão de uma ou outra alínea das leis do trabalho, mais a afinação do regime de lay-off e as medidas de proteção à empresas resolvam tudo, porque não vão resolver. Claro que as preocupações com os empréstimos ao banco e a folha salarial, as duas maiores inquietações da generalidade das empresas, ficam mais aliviadas com as medidas que estabelecem um período de carência de 6 meses no pagamento aos bancos e com a certeza de que dos 2/3 do ordenado que cada trabalhador vai passar a receber, a empresa pagará apenas 16%, sendo o resto pago pela Segurança Social. Estas e outras medidas impõem-se, são necessárias e urgentes, mas continuarão a ser como a manta curta que nos deixa os pés de fora quando a puxamos para cobrir os ombros.

Este é o tempo de abdicar. Abdicar de certas regalias, abdicar de muitos privilégios e direitos adquiridos, mas também de coisas que nos fazem falta. Não podemos dar apenas aquilo que nos sobra. Neste sentido, e porque há pessoas que dão um testemunho extraordinário e iluminante, gostava de recuar um par de dias e voltar à conversa que tive com o José Pedro Cobra, advogado e humorista, no programa Imperdíveis, aqui na rádio Observador.

Filantropo e voluntário, o Zé Pedro, como prefere ser tratado, angariou sozinho, com o seu trabalho como voluntário, cerca de meio milhão de euros que doou integralmente para incontáveis causas e associações. Em dez anos, juntou todo este dinheiro como orador, a dar conferências e palestras de formação em empresas que o contrataram por preços elevados, sabendo à partida que nem um cêntimo do valor que lhe pagavam ficaria para ele. Admirável nesta sua entrega, mas também na forma como usa o humor e a capacidade para lançar desafios de consciência, o Zé Pedro assumiu que vai prescindir dos próximos 3 ordenados.

Esta sua atitude tem que fazer um eco ensurdecedor em nós e tem que inaugurar um discernimento individual, íntimo, sobre as formas como queremos e podemos dar. Cada qual saberá aquilo de que pode prescindir, mas tal como ele disse, e eu faço questão de repetir, este é um tempo em que vai ser preciso abdicar. O Zé Pedro partilhou uma história real, recente, que resumo em poucas linhas: em Cabo Verde, numa obra maior, o grupo de trabalhadores mudava da manhã para a tarde. Ao fim de uma semana, o responsável da obra, não percebendo o que se estava a passar, chamou um dos trabalhadores e perguntou-lhe porque é que estavam sempre a mudar. Ele respondeu:

– Nós preferimos trabalhar metade e ganhar metade, para que mais pessoas possam trabalhar e ter ordenado.

Tão simples como isto. Complexo, claro. E difícil, certamente, mas seguramente infalível. São exemplos como este que podemos começar a transpor para a nossa realidade quotidiana. Muitos pais se interrogam sobre as despesas escolares dos filhos e alguns já se mobilizaram para dividir custos para que as empresas que vivem dos transportes de crianças não entrem em falência imediata. Este é apenas um exemplo concreto, mas há muitos mais.

As escolas e os colégios também abdicam de parte dos recebimentos, poupando em questões como a alimentação e atividades extracurriculares, para conseguirem manter-se em funcionamento. E por aí adiante, até chegarmos a luxos que passavam por ter um PT ou um professor de piano em casa, dos quais também foi imperioso abdicar (tenho esperança que não abdiquem de lhes pagar, pois também os artistas e os desportistas são elos mais fracos).

Este é um tempo de fazer equilíbrios e diminuir despesas, mas também é um tempo de valorizar o trabalho dos que estão impedidos de trabalhar. Em muitos casos a solução mais imediata pode passar por acordar novos valores, mas nunca por deixar de lhes pagar. Cabe aos mais privilegiados abdicar. O tempo em que os mais ricos contavam com regalias e pediam descontos acabou.