Não sendo um especialista em escultura, não creio que haja muitos a defender, na polémica em curso sobre a estátua vandalizada de António Vieira, que ela seja um exemplar da grande estatuária europeia que importa preservar a todo o preço. Aquele que Fernando Pessoa apelidou de imperador da língua portuguesa, talvez merecesse outra escultura, menos voltada para jovens índios e mais inspirada pelas suas palavras. Embora admita que deitar abaixo seja fácil e esculpir seja mais difícil. Há quem reduza o ataque à estátua de Vieira à imbecilidade, à ignorância. Temo que possa ser algo mais perigoso para o importante combate ao racismo e a outras formas de ignorância numa Europa cada vez mais diversa.

As estátuas também se abatem e a verdadeira história de Vieira

É verdade que na história europeia e mundial não faltam episódios de derrube de estátuas e outros monumentos. Mas convém recordar que essa queda dos ídolos passados é normal em situações de guerra ou revolução, de rutura com regimes anteriores. Nas democracias é suposto as opiniões e as estátuas conviverem pacificamente. A decisão, rara, de remover um monumento deve ser tomada pelas autoridades competentes nos termos da lei, em resposta ao apelo ordeiro dos cidadãos. A democracia implica que por muito boa que seja a causa ela deve ser defendida nos limites da lei.

O que dizer da compreensível indignação contra o racismo? Não é legítimo querer acabar com estátuas que homenageiam racistas e esclavagistas? É claro que é legítimo revermos os nossos lugares de memória pública, de preferência sem importar acefalamente polémicas dos EUA ou do Brasil. Percebo que a maioria das pessoas não considere que indivíduos cujo feito mais notável tenha sido fazer fortuna a traficar pessoas ou combater numa guerra para preservar a escravatura sejam merecedores de homenagem pública no século XXI e preferiam remeter as respetivas estátuas para museus. Mas não é esse o caso de António Vieira. Parece-me difícil encontrar alguém no mundo do século XVII que tenha escrito melhor português, ou que tenha denunciado de forma mais clara em qualquer língua preconceitos raciais. É verdade que o eloquente jesuíta não rejeitou a escravatura. É verdade que Vieira não escapou a todos os preconceitos da sua época. É verdade que fez cedências nos seus princípios, aceitou males menores que hoje nos podem parecer males maiores. Porém, o que torna Vieira notável é a coragem com que atacou alguns dos preconceitos correntes na sua época. E no Brasil e no Portugal do século XVII, os pouquíssimos que, como Vieira, atacavam certos preconceitos raciais ou religiosos, arriscavam a vida no choque com colonos dados à violência ou com a abrasiva Inquisição.

Os historiadores não são donos da História e abundam divisões de opinião entre os profissionais da História. Podemos, como cidadãos, querer julgar figuras do passado à luz das nossas preferências de hoje. Podemos fazê-lo, sobretudo quando se trata de decidir quem honrar publicamente em forma de estátua. O que não devemos é confundir o combate eficaz ao racismo com o vandalizar de estátuas ou com o reescrever maniqueísta da História.

A História e o futuro europeu

O principal contributo que a História como disciplina académica pode dar para este debate é fazer-nos crescer e habituar-nos à ideia de que não há heróis sem defeitos. É levar-nos a perceber que o passado está cheio de atos de heroísmo e de vilania, frequentemente pelas mesmas pessoas. É fazer-nos perceber que a história da Europa, mas também da Ásia, da América, de África, está cheia de pessoas escravizadas muito antes da chegada das caravelas portuguesas. A escravatura não foi uma invenção europeia, ou um exclusivo ocidental, foi uma constante trágica do nosso passado humano durante milhares de anos. É verdade que o tráfico de escravos de África para a América foi fruto do colonialismo europeu, enriqueceu muito alguns portugueses e é um episódio especialmente trágico, recente e significativo da história da escravatura. Mas também é verdade que os países europeus foram pioneiros na abolição da escravatura e do tráfico de escravos, que continuou a existir até ao século XX em vários Estados asiáticos e africanos. O fim legal da escravatura ou do tráfico, infelizmente, não significou a abolição dos preconceitos raciais e outros, ou de injustiças laborais ou outras. Ou seja, a História é complicada e é pouco dada a finais felizes definitivos.

Não será, porém, rescrevendo a história da Europa para a reduzir a uma caricatura negativa, com Vieira transformado em vilão, que assistiremos a grandes avanços futuros no combate urgente aos preconceitos raciais. Isso só levará ao substituir de uns preconceitos por outros. Dá mais trabalho estudar a atuação das polícias e trabalhar para a tornar menos discriminatória. Dá mais trabalho investir numa educação cívica séria contra o racismo nas escolas. Dá mais trabalho, em suma, investir em políticas públicas sérias e inclusivas, mas só isso resultará numa História de futuro melhor para uma Europa mais diversa.

Um dos grandes perigos dos momentos de crise profunda e de grande incerteza como aquele que vivemos, é que se caia no conforto fácil das políticas identitárias. Podemos voltar a assistir a uma vaga de messianismos populistas como os que a Europa viveu há um século, na sequência de grandes guerras, da grande pandemia de 1918 e da grande depressão económica de 1929. Apostar no cultivo obsessivo das diferenças, na política de nós contra os outros, como temos visto, da Catalunha até Trump, só dá força aos extremos e não resolve os reais problemas existentes. Esperemos que a tentativa de reescrever a História europeia que vitimou Vieira não nos distraia do trabalho necessário para um futuro europeu melhor, mais inclusivo, num mundo mais perigoso. E, já agora, se não for pedir muito, não nos distraia do combate por promover melhor estatuária pública em Portugal.

Bruno Cardoso Reis (no twitter: @bcreis37), historiador e Subdiretor do Centro de Estudos Internacionais do Iscte-IUL, é um dos comentadores residentes do Café Europa na Rádio Observador, juntamente com Henrique Burnay, Madalena Mayer Resende e João Diogo Barbosa. O programa vai para o ar todas as segundas-feiras às 14h00 e às 22h00.