Compreendo que ninguém pode ser especialista em tudo, ter conversado com todas as pessoas, lido todos os livros, frequentado todos os cursos ou vivido em todos os lugares. Inevitavelmente, somos muitas vezes obrigados a tomar posição com informação incrivelmente escassa. É natural focarmo-nos nos aspetos que consideramos mais relevantes e decidirmos com base na curta informação de que dispomos.

Se houver um conflito entre a China e Taiwan, eu — até prova em contrário — estarei do lado de Taiwan. Não conheço em profundidade o tema, nunca vivi naquela região, não falo a língua e os livros que li sobre o assunto contam-se com os dedos de uma mão. Mas sei que, de um lado, está um regime tirânico, totalitário e comunista, e do outro, uma democracia livre a lutar pela sobrevivência.

As democracias têm mecanismos que lhes permitem falhar menos: equilíbrio de poderes, media livres, partidos diversos com presença no parlamento e voz junto dos cidadãos. Pelo contrário, os regimes autoritários falam a uma só voz, sem dissidência ou contraditório, o que dificulta a correção de rumo quando este se revela errado. Nestes contextos, é sempre mais fácil controlar a narrativa do que corrigir o erro. Não é por acaso que a União Soviética não reconheceu o desastre de Chernobyl até ser confrontada com provas inequívocas recolhidas por países livres. Era bem mais eficiente silenciar o jornal oficial de Moscovo, o Pravda (ironicamente, “A Verdade”).

Isto não significa que devamos cair na ingenuidade de acreditar que as democracias estão sempre certas ou que agem sempre de forma honesta. Quando o Presidente norte-americano George W. Bush e o Secretário de Estado Colin Powell garantiram que o regime iraquiano possuía armas de destruição maciça, grande parte do mundo acreditou. Saddam Hussein foi, sem dúvida, um dos ditadores mais brutais do século XX — odiado pela sua população, envolvido em invasões regionais e responsável por ataques com armas químicas e assassinatos em massa. Mas mais tarde soubemos que os líderes das democracias nos mentiram, falsificando provas e desencadeando uma guerra desnecessária que deixou o Iraque nas mãos do Estado Islâmico (ISIS), o regime mais violento e absurdo da história recente. Pelo caminho, deixaram um rasto de centenas de milhares de mortos e um país destruído durante décadas.

E por que falo disto? Porque demasiadas discussões sobre Israel e Palestina acabam por se reduzir à comparação entre os seus regimes. Israel é, sem dúvida, um país mais livre e democrático do que a Cisjordânia controlada pela Fatah — e ainda mais em relação ao regime islâmico autoritário do Hamas em Gaza. Mas isso não significa que cada ação de Israel seja automaticamente correta. Devemos julgar as ações (e as palavras) pelo seu próprio mérito — e não apenas por quem as pratica.

O estado de destruição generalizada em que Gaza se encontra após a guerra demonstra, de forma inequívoca, que Israel procurou muito mais do que apenas capturar ou eliminar os responsáveis pelo massacre de 7 de outubro e libertar os seus reféns. Se juntarmos a isso a precisão cirúrgica dos recentes ataques ao Irão, torna-se evidente que o que foi feito em Gaza não foi um erro, nem resultado de falta de capacidade militar ou tecnológica — foi uma opção deliberada. Israel tratou a população de Gaza como se não houvesse civis inocentes, uma posição que, lamentavelmente, foi defendida publicamente por diversas personalidades israelitas, incluindo políticos no ativo.

Um exemplo claro disso foi a declaração do deputado israelita Tzvika Foghel, presidente da Comissão de Segurança Nacional do Knesset, que afirmou numa entrevista ao Israel National News:

“It’s time to deal decisively with Gaza. Take off the gloves. Stop all humanitarian aid – no electricity, no water – and begin destruction and promoting voluntary migration. In my view, there are no uninvolved civilians left there. There are no innocents. They’re all Hamas.”

Esta ideia, como tantas outras, nada tem de novo. Reflete o pensamento e a ação de Arthur “Bomber” Harris, responsável pelos bombardeamentos sistemáticos de cidades alemãs durante a Segunda Guerra Mundial — uma estratégia que ele próprio chamava de “dehousing”, ou seja, a destruição deliberada de áreas residenciais para quebrar o moral da população. A discussão repetiu-se nos Estados Unidos durante a campanha contra o Japão, quando a chamada “Bomber Mafia” defendia bombardeamentos de precisão contra alvos industriais. No entanto, essa visão foi rapidamente ultrapassada pelo General Curtis LeMay, que liderou os ataques incendiários a Tóquio e outras cidades japonesas, culminando na destruição de mais de 60% da área urbana de Tóquio na noite de 9 de março de 1945 — o ataque aéreo mais letal da história — e, por fim, no uso das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os Aliados exigiam das potências do Eixo uma rendição incondicional. Infelizmente, quando os Palestinianos o fizeram — ao reconhecerem Israel e aceitarem negociações — não foram ajudados a construir um país livre, mas sim deslocados. Hoje, com vozes influentes na política israelita, como a ministra May Golan (que em entrevista recente a Piers Morgan afirmou estar “orgulhosa das ruínas de Gaza” e defendeu “outra Nakba”), sabemos bem o que acontecerá aos Palestinianos se se renderem. Mesmo na Cisjordânia, onde não há Hamas, a cada dia que passa chegam mais colonos israelitas, mais terras são confiscadas e mais vilas palestinianas são atacadas — como aconteceu na semana passada em Taybeh, a pequena vila cristã de onde sai a cerveja nacional, alvo de incêndios e violência por parte de colonos israelitas. Perante esta realidade, torna-se impossível ignorar os paralelismos históricos e as implicações morais que dela decorrem.

No fundo, o que está em causa não é escolher um lado exclusivamente baseado no seu regime, mas manter um critério ético coerente, mesmo quando isso implica questionar os nossos aliados. Defender valores democráticos implica também reconhecer quando esses valores são postos de lado — e não ter medo de o dizer.