No outro dia falava com uma amiga que, regressada do estrangeiro há pouco tempo, me dizia que gostaria de militar num partido mas que não se revia especialmente em nenhum no contexto nacional. Isto porque, se por um lado, se define como liberal na economia, defende uma agenda “progressista” no que respeita aos costumes. Como ela, conheço tantas outras pessoas que pensam desta forma, nas startups, no mundo empresarial, no sector associativo, no mundo artístico e nos mais variados meios. Também conheço outras tantas que defendem um Estado social intervencionista mas que são conservadoras nos costumes. Quer de um lado, quer de outro, são pessoas que estão completamente ausentes do debate político-partidário mas que dão um contributo fundamental para o desenvolvimento do país e que deviam fazer parte da discussão nacional. E eles, tal como outros segmentos do eleitorado esquecido, também não têm voz, nem enquadramento político-partidário.

É já lugar-comum defender que as tradicionais linhas de clivagem ideológicas e partidárias estão a sofrer mudanças e as lealdades do eleitorado são hoje mais dispersas.  O que não é unânime, e tem sido amplamente discutido, é o que são hoje as tais linhas de clivagem e o que separa os vários eleitorados. Fala-se muito de um clima de crescente polarização política mas que polarização é essa?

Elites internacionalizadas vs “povo” esquecido? Jovens vs Idosos? Apologistas da globalização vs do proteccionismo? Progressistas versus conservadores? Estado versus empresas? Comunismo versus fascismo? Pró-europeus vs eurocépticos? Maiorias versus minorias? Ecologistas vs negacionistas?

Resumindo, vivemos num momento não só de redefinição do sistema político mas também ideológica. As distinções clássicas entre esquerda e direita de pouco servem para compreender os desafios do Mundo actual – motivo pelo qual é recorrente exemplificar com os partidos da extrema-direita Europeia e a alt-right nos EUA que incluem elementos da tradicional esquerda proteccionista, antiglobalização e eurocéptica (no caso Europeu).

Os desafios que se colocam neste século e nesta década – a digitalização da economia, a 4ª revolução industrial, as alterações climáticas, as migrações, a globalização, as guerras comerciais, o futuro da União Europeia, a pobreza extrema, as desigualdades, os desastres naturais – não podem, nem devem, ser abordados à luz da chave de leitura “esquerda vs direita” nem dentro das caixas e rótulos político-partidários a que o nosso sistema nos limita. Por isso não se percebe a insistência de tantos representantes de partidos políticos em afirmar, como se tivessem descoberto a pólvora, “uma agenda de direita” ou o combate à “esquerda radical”, por um lado, ou uma obsessão com o combate ao “fascismo” e às políticas de direita, por outro, como se isso dissesse o que quer que seja a alguém que não seja militante activo num partido. A tal “agenda de direita” ou “de esquerda” deve ser um meio para atingir um fim e não o fim em si mesmo. Não se ganham eleições apregoando “agendas de direita” ou “agendas de esquerda.”

De resto, não se percebe porque é que é tão difícil compreender que uma pessoa possa simultaneamente defender a economia de mercado e a despenalização do aborto ou da eutanásia, por exemplo. Ou a reforma de Estado e direitos para a comunidade LGBTI. Em que é que estes elementos se contradizem? Em nada. Podemos defender o combate às desigualdades sociais sem que isso seja feito recorrendo exclusivamente ao Estado e à subsidiodependência. Ou defender uma reforma estrutural do SNS e simultaneamente apoiar a agenda anti-racista. Temos todos que subescrever esta noção do “pacote” partidário e ideológico? Não se pode ser de esquerda numas coisas e de direita noutras?

Quando olhamos para o debate e o sistema político-partidário português, se excluirmos os partidos emergentes das franjas (Chega, IL e Livre), parece que estamos perante uma classe política autista que fala para dentro e nunca para fora. Os programas eleitorais até podem defender ideias e medidas relevantes, mas o discurso e os debates não se adaptam nem às preocupações do “povo” nem aos grandes desafios globais deste século. Acredito que nos bastidores não seja assim mas a imagem que passa é que o único objectivo é atacar o governo ou a oposição dependendo do lado da barricada que se assume. A demagogia e o seguidismo político-partidário imperam de tal ordem que condicionam todo o pensamento e acção. Poucos são os que ousam divergir. Não se olha para as questões – seja a habitação, a educação, a saúde, a economia, os desastres naturais, os temas ‘fracturantes’ – pelo valor e conteúdo intrínseco que têm mas sempre na óptica de exacerbar diferenças, por vezes inexistentes, e de combate político. Tudo obedece a uma cartilha demasiado previsível.

Enquanto a prioridade for “bater na esquerda” ou “bater na direita” nunca resolveremos ou debateremos com seriedade as questões estruturais para o progresso do país. “Bater” num lado ou noutro ou fazer “oposição” deve ser um efeito colateral de uma agenda que se propõe defender e não o contrário.

Os temas do racismo, da igualdade de género, da diversidade, das migrações são ilustrativos dessa falsa dicotomia. Não deveriam nunca ser temas fracturantes ou polarizadores entre a esquerda e a direita.

Há muitas pessoas que querem ter um papel na política mas simplesmente recusam jogar este jogo. Há lugar para elas?