Bruno Horta Soares. 41 anos. Fundador da Iniciativa Liberal. Professor Universitário. Consultor. Foi apresentado, a 23 de Maio de 2021, como o “Plano B” do partido liberal para a corrida à Câmara Municipal de Lisboa, depois da desistência de Miguel Quintas, justificada com “motivos pessoais”.

Seria de esperar, depois de tão tumultuoso início de candidatura, que o partido se apresentasse com uma campanha forte, ao nível a que Tiago Mayan, por exemplo, nos habituou. É pública a notoriedade que liberal da Foz trouxe ao partido e isso refletiu-se nos resultados presidenciais.

Poderão dizer-me que uma coisa são eleições presidenciais e outra as autárquicas e eu concordo com esse argumento. Mas o tom estava estabelecido, a fasquia estava alta e era importante para a Iniciativa Liberal continuar a surfar a “onda liberal”, se quer consolidar o seu espaço no panorama político português.

Tiago Mayan deixou uma base de 6.45% em Lisboa, legado esse que, teoricamente, deveria ser o ponto de partida de Bruno Horta Soares para estas autárquicas. No entanto, tal não se verifica, segundo as sondagens mais recentes.

De acordo com a sondagem feita pelo ISCTE/ICS para a SIC/Expresso, o candidato liberal apresenta-se, em período de pré-campanha, com 2% das intenções de voto dos lisboetas, muito abaixo de Fernando Medina (PS) com 42%, Carlos Moedas (PSD) com 31%, Beatriz Gomes Dias (BE) com 8%, Nuno Graciano (CH) com 3% e, por último, Manuela Gonzaga (PAN) com 3%.

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Em suma, Bruno Horta Soares é o candidato autárquico com menos intenções de voto, apesar das iniciativas de campanha que já protagonizou e que receberam alguma atenção mediática – a saber, Arraial Liberal, Corrida contra Fernando Medina e Padel Liberal –, figurando abaixo de Nuno Graciano, candidato do Chega, que consegue os 4% de intenções de voto sem ter ainda entrado, efetivamente, em campanha eleitoral. Isto, talvez, poderá espantar algumas pessoas, mas vamos a possíveis justificações.

Estamos no final de Julho, não entrámos na campanha propriamente dita e há 17% de indecisos, mas, até agora, a candidatura de Bruno Horta Soares – que se apresenta com um discurso crítico a Fernando Medina – apenas organizou eventos como o Arraial Liberal (que ficou manchado pelos jogos populares, onde figuravam personalidades do governo e da oposição como alvos a abater, e onde não figurava, por exemplo, André Ventura); uma corrida liberal com o nome “Correr contra o Medina”; e, por último, um torneio de Padel Liberal.

Ora, até agora, Bruno Horta Soares não apresentou ideias concretas, a não ser os grandes chavões que representam o partido, como “reduzir todos os impostos, taxas e taxinhas”.

Tudo isto levanta várias questões:

  • O que é que uma corrida liberal, um torneio de padel ou uma sessão de perguntas e respostas no Reddit podem fazer para solucionar os reais problemas dos lisboetas? Pouco.
  • O que é que o Reddit diz a uma pessoa que não usa redes sociais? O que é que um torneio de padel, fortemente publicitado nessas mesmas redes, diz a uma pessoa que não as usa? Ou a quem não pratica este desporto, tão conotado com as elites?
  • O que é que um arraial de Santo António, que pode ser fonte de contágio no actual contexto pandémico, diz a quem perdeu negócios de anos?

É a estes eventos que vai ficar reduzida a campanha à principal câmara do país de um partido recente, fundado em 2017, que tem um deputado eleito na nossa Casa da Democracia?

É também certo que os tempos evoluíram, o orçamento da Iniciativa Liberal poderá não ser significativo e que as campanhas de canetas, sacos de supermercado e baralhos de cartas perderam espaço numa sociedade cada vez mais digital, mas o partido não se pode esquecer que há pessoas que, por várias razões e motivos, não acompanham a evolução digital e que uma caneta e duas palavras na rua podem fazer toda a diferença no dia de colocar a cruz no boletim de voto.

O candidato liberal tem carisma, boa imagem e boa oratória. Não nos esqueçamos de que é professor e sabe mexer muito bem com as redes. Tem um sentido de humor característico, algo irônico, mas, sejamos honestos, tem-se apresentado totalmente vazio de ideias.

É um pouco aquela figura que fica bem nas rádios para protagonizar momentos como o “Aqui estou, Manuel Acácio” de Carlos Moedas, de perfil no jornal Expresso, para aparecer no Instagram com legendas do estilo “admito que alombei uma grade de águas e que bebi uma” ou até para aparecer a reagir à mais recente reunião do Infarmed, mas é apenas isso, um produto do marketing, uma cara bonita do que muitos chamam “partido start up”.

Desengane-se quem pensa que quero que a candidatura de Bruno Horta Soares seja vencedora na corrida a Lisboa. Estou muito afastada politicamente da Iniciativa Liberal, mas, convenhamos, uma pessoa quando se mete na corrida à Câmara da nossa capital, ou a qualquer outra, deve ter o perfil certo e não se deve comportar como aquilo que aparentemente é: um Plano B.

A reflexão que muitos liberais da capital deverão estar a fazer neste momento, dados os resultados desta sondagem inicial, será sobre o que vale mais a pena: dar mais força à Iniciativa Liberal em Lisboa para os combates futuros ou, numa perspectiva de voto útil, votar no candidato que mais possibilidades terá de tirar Fernando Medina da câmara municipal.

Concluo com duas questões: Bruno Horta Soares pode até ter o carisma que faltou a Tiago Mayan no início da campanha, mas, ao menos, o candidato presidencial tinha as suas ideias, ainda que diametralmente opostas às minhas. O que falha no Bruno? Ideias ou uma equipa de assessores competente que lhe saiba mostrar um caminho?