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“A democracia está transformada numa gritaria, onde não há um longo prazo nem passado, é tudo uma emoção, uma indignação, a última antes da próxima.” Foi assim que Paulo Portas se referiu à política actual, no último congresso do Movimento Europa e Liberdade. Não podia estar mais de acordo. A esquerda é a campeã das causas, das causas que não contam, das causas inúteis; senão vejamos três exemplos: touradas, racismo, quotas de género. Pergunto-me, qual destes assuntos é realmente relevante na nossa sociedade actual e naquela que queremos construir no futuro?

Comecemos pela primeira, as touradas. Não me vou alongar aqui, vou a touradas quando me apetece, pago o meu bilhete; entendo perfeitamente os que não gostam. Eu, por exemplo, não gosto de curling, por isso não vejo. O argumento “mas ao touro ninguém perguntou se quer estar ali” é tão fácil como infantil, como se alguém tivesse perguntado aos caracóis se querem ir para uma panela com água a ferver enquanto ainda estão vivos.

Racismo. Deixem-me ser claro, qualquer tipo de discriminação não pode ser tolerado, ninguém pode deixar de aceder a qualquer cargo pela sua cor da pele. A pergunta que tenho é, num país que tem uma ministra da Justiça negra e um Primeiro-Ministro de origem indiana, a cor da pele é realmente um entrave a ascender a algum cargo? Não me parece.

Quotas de género. Recentemente, tive a oportunidade de participar num debate onde uma das temáticas abordadas foi a necessidade ou não, de quotas de género no mercado de trabalho, organizado por alunos do ensino secundário da escola Emídio Navarro em Almada. Os meus colegas de debate foram Sandra Pereira, eurodeputada do PCP, Filipe Pacheco, deputado do PS e Cláudia Lourenço, directora da Procter&Gamble. Nesse debate fui o único a rejeitar as quotas de género como critério de selecção para qualquer posição ou lugar, seja na administração pública ou no sector privado; faço-o por princípio. O mérito, a competência e o esforço devem ser os únicos factores decisivos na escolha de alguém para qualquer cargo. Devo dizer, a este respeito, que depois de ter dado o exemplo do curso de Medicina, onde as mulheres estão em clara maioria, o deputado do PS aventou a possibilidade de o curso de Medicina ter quotas para homens.

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A direita liberal deve rejeitar as causas artificiais e apontar baterias para aquilo que verdadeiramente importa e existem diversas questões que merecem ser abordadas. Hoje, foco-me em duas causas verdadeiramente importantes para o nosso futuro colectivo: natalidade e envelhecimento activo.

Actualmente, existe em Portugal um milhão de pessoas com 75 anos ou mais, 21% dos portugueses têm 65 ou mais anos, em contraponto com os 14% que têm menos de 15 anos. Mas ainda mais impressionante que estes números, são as previsões do INE, que indicam que, entre 2010 e 2050, o total de pessoas com mais de 65 anos terá um aumento superior a 40%, ultrapassando os três milhões de pessoas (cerca de 1/3 da população terá mais de 65 anos). Se juntarmos a isto o verdadeiro descalabro que temos na natalidade, recordo que em Janeiro e Fevereiro Portugal registou o número mais baixo de nascimentos desde que há registos, temos então o cocktail perfeito para convulsões sociais inevitáveis. Alguém consegue imaginar como será o sistema de pensões ou o Serviço Nacional de Saúde daqui a 20 anos se nada for feito rapidamente?

O espaço não socialista, se quer ser relevante eleitoralmente, tem que ter um programa eleitoral baseado no pragmatismo, na liberdade económica e política, mas sobretudo tem que se focar numa palavra: esperança. E só o fará, se chamar a atenção para aquilo que importa e apresentar soluções.

Ainda vamos a tempo se começarmos já!