1 Foi no passado dia 24 de Janeiro que teve lugar na Madeira – em Câmara de Lobos, na Churchill Bay – a 3ª edição das Conferências do Atlântico. O tema deste ano foi “Winston Churchill, Liberal Democracy and the Euro-Atlantic Alliance”.
Inúmeros participantes consideraram o tema de extrema atualidade. E terão certamente razão. Mas o ponto de partida das Conferências do Atlântico – promovidas pelo Presidente da Câmara de Câmara de Lobos, o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, em colaboração com a Universidade da Madeira, e sob o Alto Patrocínio do Presidente do Governo Regional da Madeira – decorre da celebração da visita de Churchill e sua mulher, Clementine, à Madeira, em Janeiro de 1950. Celebrámos precisamente 75 anos, nesta 3ª edição das Conferências do Atlântico.
2 Será oportuno recordar que, na data daquela visita, Churchill era apenas o líder da Leal Oposição de Sua Majestade ao Governo Trabalhista de Clement Attlee, que tinha sido seu vice-primeiro-ministro no Governo de Coligação Nacional (Conservador-Trabalhista-Liberal) durante a II Guerra Mundial.
Vale certamente também a pena recordar que Churchill, tendo liderado a resistência britânica desde 1940 e celebrado a vitória em Maio de 1945, logo a seguir perdeu as eleições em Junho desse mesmo ano.
Educadamente (ao contrário de alguns políticos da era atual que gostam de atacar as “elites” ou/e as “oligarquias” como pretexto para não respeitarem os resultados eleitorais, quando lhes são desfavoráveis), o aristocrata-conservador-liberal Winston Churchill aceitou a derrota (ainda que com grande e compreensível tristeza pessoal) e civilizadamente atravessou o corredor central do ancestral Parlamento britânico para se sentar na bancada parlamentar do líder da Leal Oposição.
3 Foi por isso apenas como Líder da Leal Oposição que Churchill visitou a Madeira em Janeiro de 1950. Mas, tal como recorda Miguel Albuquerque no seu livro Churchill na/in Madeira (Alétheia, 2018), foi como líder do Mundo Livre que ele foi entusiasticamente recebido pela população Madeirense.
E foi também precisamente como líder do Mundo Livre que Churchill foi celebrado e recordado na 3ª edição da Conferências do Atlântico – onde foram essencialmente debatidas as heranças da sua liderança em defesa do Mundo Livre, contra os totalitarismos nazi-fascista e comunista, e em defesa de uma ordem mundial fundada em regras, sustentada pela Aliança Euro-Atlântica.
4 José Manuel Barroso, ex-Presidente da Comissão Europeia e ex-Primeiro-Ministro de Portugal, abriu a conferência com uma marcante intervenção por zoom. Os trabalhos foram encerrados, no Winston Churchill Memorial Dinner, por Lisa Bandari, Embaixadora do Reino Unido em Portugal e Cabo Verde, que esteve presente em toda a conferência.
Não sendo possível resumir neste espaço as duas excelentes intervenções, foi certamente muito marcante a sintonia de ambos sobre o exemplo inspirador de Churchill na defesa da democracia liberal, da aliança euro-atlântica e no diálogo multilateral em defesa de uma ordem mundial fundada em regras.
A Embaixadora Lisa Bandari, introduzida por Edward Godfrey, Presidente da British Historical Society of Portugal, sublinhou também que estes ideais tinham sido inicialmente anunciados na chamada primeira Conferência do Atlântico, em Agosto de 1941: quando Churchill se reuniu com o Presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, no Mar de Placentia Bay, ao largo de Newfoundland, no Canadá, quando os EUA eram ainda oficialmente neutros. Mas Roosevelt teve a coragem política de assumir a defesa da democracia liberal contra os totalitarismos de sinal contrário, mesmo quando os EUA não tinham ainda sido diretamente atacados (pelo Japão, em Pearl Harbor, a 7 de Dezembro de 1941).
Foi nesse encontro histórico – que ficou conhecido como primeira Conferência do Atlântico – que aprovaram a famosa Carta do Atlântico, onde ficaram solenemente gravados os princípios que viriam a presidir, após a vitória aliada sobre o nazismo, à criação das Nações Unidas, em 1945, da NATO, em 1949, e da futura União Europeia (então Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), em 1951.
5 Esta crucial importância do Mar, e em particular do Atlântico, esteve presente em todos os painéis. Joaquim Pinheiro, da Universidade da Madeira, em conjunto com Raquel Duque, Henrique Burnay, João Pereira Coutinho e Miguel Monjardino, do IEP-Católica, debateram em Mesa Redonda “A Democracia Liberal e a Aliança Euro-Atlântica na atualidade”.
E um painel dedicado à “Mudança do Regime dos Oceanos: Impactos na Responsabilidade e na Conflitualidade Internacional” reuniu Sónia Ribeiro e Aldino Campos (do IEP-Católica) com Roy Garibaldi, da Sociedade de Desenvolvimento da Madeira, sob a coordenação de Lionel Silva, Presidente da Câmara de Câmara de Lobos.
6 Para concluir, cabe talvez agora recordar o painel das Conferências do Atlântico em que Katherine Carter, introduzida por Embaixadora Ana Martinho, falou sobre a casa privada de Churchill em Chartwell, ao sul de Londres, de que ela é “Curator” – e sobre a qual acaba de publicar um livro muito elogiado sob o título Churchill’s Citadel: Chartwell and the Gatherings Before the Storms (Yale University Press, 2024).
Não é possível resumir aqui a excelente intervenção nem o fantástico livro de Katherine. Mas não pode deixar de ser referido que a intervenção e o livro recordam o enfático comprometimento pessoal de Churchill com a causa liberal-democrática – mesmo quando era apenas um cidadão privado ou um simples membro do Parlamento.
7 Tendo mesmo de concluir, gostaria de recordar uma passagem de Churchill sobre a moderação da vida política britânica, em contraste com as ditaduras nazi-sovéticas, mas/e também em contraste com os populismos actuais:
“Em Inglaterra, as opiniões políticas das pessoas e dos partidos crescem como uma árvore que lança sombra sobre os seus ramos, cuja forma emerge gradualmente com os ventos. Nos nossos assuntos, tal como nos da Natureza, há sempre bordas desgastadas, compromissos, anomalias. Poucas linhas são desenhadas que não sejam atenuadas.” (“Personal Contacts”, in Thoughts and Adventures, 1932).