Em 2025 mergulhei 154 vezes. Isso significa entrar no mar uma vez em cada 2,3 dias. Escrevi na semana passada que levava muito a sério o facto de sermos um país litoral. É alguma promessa que fiz? Nem por isso.
Em 2010 eu e a Rute tínhamos a nossa filha mais velha com 6 anos, a segunda com quase 4, o rapaz mais velho com quase 3 e o mais novo nasceu nesse ano—era bebé. Pôr a casa a funcionar pela manhã era exigente. Esse stress não me ajudava a ser um bom cristão. E eu queria ser um bom cristão. Alem da minha família, tinha a meu cargo uma pequena Igreja e deveria ser um exemplo. Como é que ia conseguir ser um bom cristão se, logo pela manhã, me ameaçava o stress de uma casa com quatro pequeninos?
Sabia que precisava de Deus ainda antes de a minha família precisar de mim. Precisava de ter um tempo de oração e de leitura da Bíblia ainda antes de a miudagem acordar. No fundo, precisava de me santificar para que fosse um pai e um marido menos pecador quando o dia começasse com toda a intensidade do costume. Não tive grande alternativa: se todos começavam a acordar por volta das sete da manhã, ainda antes disso tinha de arranjar maneira de fazer as minhas devoções.
Podia fazê-las dentro de casa. Mas a esta questão juntava-se outra: pelo facto de vivermos em Oeiras, junto ao mar, considerava que até então desperdiçava o privilégio. Via os surfistas em Carcavelos e Santo Amaro e tomava-os como exemplos de quem realmente tirava partido das praias à porta de minha casa. Mais ainda: em 2010, com quase 33 anos, eu não tinha, como eles tinham, qualquer hábito regular de exercício físico. As evidências convergiam.
Que tal se juntasse as minhas devoções ao exercício físico feito junto ao mar? Assim tentei. Era Setembro, final do Verão de 2010, e comecei a acordar às seis e meia da manhã. Saía da cama, vestia calções de banho e corria em direcção ao mar. Enquanto o fazia, orava e memorizava textos bíblicos. A corrida até à praia de Santo Amaro levava pouco mais de dez minutos, mergulhava e regressava a correr. Todo o processo exigia cerca de quarenta minutos. Sete e pouco da manhã e estava de volta a casa, pronto para o intenso acordar infantil da Família Cavaco.
Admito que só pelo facto de regressar a casa às sete e pouco da manhã, feitas a corrida, a oração, a memorização bíblica e o mergulho no mar, sentia-me menos pecador. Há aqui um risco óbvio, de nos encantarmos com os nossos próprios feitos. Ainda assim, é preferível o risco de nos armarmos em espertos por fazermos alguma coisa, do que o risco de nos armarmos em espertos por fazermos coisa nenhuma. Fiz por manter o hábito.
Quando chegou o Inverno de 2010 pensei que não desse mais para mergulhar no mar. Mas apercebi-me de que quando não mergulhava perdia a energia para a corrida de regresso a casa. Por outro lado, e tendo em conta que o mergulho é apenas um mergulho mesmo de nem um minuto dentro de água, podia usar aquele pico de reacção física a meu favor. Nunca esfriava porque rapidamente voltava a correr. “Isto funciona durante o ano inteiro”, conclui. E assim fiz.
Nos primeiros anos tentei correr para o mar durante todos os dias de semana. Raramente conseguia fazê-lo de segunda a sexta. Fazia três dias seguidos e falhava o quarto, por exemplo. Desde 2020 apercebi-me de que, já com mais de 40 anos, o meu corpo reagia melhor se mantivesse um ritmo menos intenso mas mais regular: corro para o mar às segundas, quartas e sextas e ao Sábado, quando posso, mergulho em ritmo de passeio com a Rute. Claro que há sempre falhas. Mas o ritmo consolidou-se.
No que diz respeito às práticas devocionais, as orações estabilizaram-se. Oro cerca de dez minutos usando um modelo fixo em que agradeço e peço pela minha família (próxima e afastada), pelas pessoas da minha igreja, por amigos, por inimigos e por mim. O número desta gente anda perto do meio milhar e não é tão difícil assim memorizar os nomes das pessoas se o fizermos regularmente. Consegui memorizar também o Sermão do Monte e a estrutura do Evangelho de Marcos (ando de volta do discurso de Jesus na última Ceia mas tem sido mais complicado).
Corro devagar e gostava de um dia correr mais do que os lentos quatro quilómetros do costume. O mergulho também não me fez nadador competente. E, no processo, os pequeninos tornaram-se grandes. Já não preciso de acordar tão cedo porque o acordar da família Cavaco perdeu intensidade: cada um já sabe tratar de si. A minha capacidade física não mudou extraordinariamente mas mudou a minha família. E espero ter mudado espiritualmente eu também, mantendo-me a fazer o mesmo nestes 15 anos. Afinal, ser mais santo é uma necessidade que também não mudou.