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Todos os dias, a mesma dúvida: viro à esquerda ou à direita? A caminhada diária pela praia, pelo menos hora e meia de “sand walking”, é uma necessidade dos meus dias de férias, um tempo de evasão e entretenimento. À esquerda, rumo ao distante posto um, onde o povo se amontoa e há risos e merendas e mergulhos barulhentos, ou à direita, até ao definitivo posto dez, uma mistura de famosos pobres com desconhecidos ricos, “socialites” e profundas famílias com nomes sonantes, como os da cunha, os dos santos, os da costa?

Pratico o “people watching”. Antiga como o tempo, é a arte de observar pessoas, sozinhas ou em interacção, nos seus habitats habituais ou em contextos sociais específicos. Pode ser praticada sozinho ou acompanhado. No livro “People Watching, a guide to human behaviour”, Desmond Morris explica o que está em causa: o comportamento humano. Observamos pessoas como observamos pássaros ou insectos com vista a uma melhor compreensão dos outros e, em última análise, de nós próprios (Desmond dixit, não eu, que não seria capaz).

Um bom exemplo foi o de uma família que, pelo acaso do seu próprio arbítrio, pude observar durante uma parte do dia. Chegaram em bando, uns 20, de todas as idades, carregando sacos, saquinhos e saquetas; depois de inspecionar os arredores – largos metros quadrados de areia fina desabitados rodeavam o ponto onde eu estava sentado numa cadeira de praia -, instalaram-se mesmo atrás de mim e começaram a plantar uma boa meia dúzia de chapéus-
de-sol e lonas à volta, criando uma tenda de praia gigante. Coloquei os óculos escuros, seguindo as regras básicas do “people watching”, e comecei a observar discretamente. Não tardou a chegar o momento culminante: dentro do perímetro da tenda, protegidos pelas telas e chapéus da inclemência dos raios UV, a família sentou-se sobre toalhas, abriu taparueres e geladeiras e distribuiu as vitualhas. Num espaço de 6 metros quadrados, se tanto, quase 20 seres humanos comeram com apetite, à vista da praia toda – ou pelo menos à minha -, couratos, sandes repletas de carnes abundantes, croquetes, chamuças, saladas de grão e outras (saladas), talhadas de melão, figos e uvas, acompanhando com minis fresquinhas, coca-colas e água das pedras para a avó. Fixei-me nesta, uma senhora de uma certa idade (temos todos uma certa idade, é certo), branca como a noite, encostada ao fundo da tenda.

Terminado o repasto, a maioria dos jovens adultos e até os adultos trouxeram as toalhas cá para fora e puseram-se a dormir. A senhora de uma certa idade não tirou a saia nem a camisa, recostou-se com a tenda toda para si e adormeceu – ouvia-se o troar da sua respiração do meu pouso de observação.

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Fui caminhar. No posto ao lado, homens de negócios assumiam a posição habitual das férias algarvias das nossas elites: braços cruzados sobre o peito, barrigas espetadas, o ar satisfeito de quem está entre pares em conversas de verão com as mesmas pessoas com quem se dá o ano todo, só que desta vez despidos, ou quase, face ao oceano que é de todos. O assunto parecia ser sempre o mesmo (a arte de observar inclui necessariamente a capacidade de escutar), contendo expressões como parece impossível, ou eu sempre soube, ou ainda, essa gente devia estar presa. A praia seguinte regurgitava de “bifas”, expressão em voga entre os jovens machos da nossa espécie, destacando-se pela cor leitosa da pele – substituída por um rosa choque aos primeiros ataques da luz solar – e pelos seios em liberdade; interessou-me particularmente um grupo de quatro decerto britânicas, em aparente abandono a morfeu, rodeadas por uma matilha de uns 10 portugueses (não me perguntem como sei), entre os quais se destacavam três barrigudos com para aí uns 50 anos, que se revelaram, aos meus treinados olhos de observador experimentado, os mais activos. Após uma hora a tentar quase tudo para lhes chamar a atenção, incluindo uma sessão de flexões a dois metros dos pés nus das inglesas, a malta cansou-se e foi jogar futebol, sendo clara a capacidade de quase todos para dar toques e enquanto davam toques as senhoras acordaram, vestiram os biquínis, recolheram as trouxas e recolheram a penates, sem que os promissores futebolistas dessem por isso. Não fiquei para avaliar a sua reacção quando regressassem…

Foi uma tarde particularmente interessante no que respeita à minha arte. Assisti ao desquite em directo de um casal, com água pelos joelhos e aos gritos (é sempre uma ofensa a um verdadeiro people watcher não ser obrigado sequer a melhorar o seu ponto de observação ou tentar ler os lábios ou a expressão corporal): ela acusava-o de dormir “com essa gaja” e ele só repetia “tem calma querida, tem calma” e ela “logo essa, que dormiu com todos” e ele “tás nervosa, querida, acalma-te” e ela a prometer vingança e a falar de um lopes, e de um sá, e do amigo dele, o viegas, que a olhava com cupidez que ela bem via (não usou a palavra cupidez, mas não posso repetir os termos exactos num jornal sério como o Observador), etecetera e tal e lá se consumou o desquite, embora na verdade não deva ter sido bem assim porque quando voltei a passar naquele posto, de regresso da caminhada, os dois estavam no bar mais acima a comer um gelado e ele tinha um chapeuzinho no cocuruto e ela continuava aos gritos e desta vez eu fiz um desvio para poder ouvir e ouvi “nunca mais falas com ela, Esteves, percebeste?” e ele a chupar um cigarro pensativo (tinha de entrar Pessoa), provavelmente desiludido com a evolução da crise, soprou uns aros de fumo e revirou os olhos antes de responder: “sim querida”. Cruzei pais e filhos em inglórias raquetadas, empregadas meio fardadas a tomar conta de crianças barulhentas, dezenas de castelos na areia, reparei com deleite numa mulher linda a entrar na água como se encontrasse o ponto de equilíbrio, lentamente, e a minha observação nesse caso foi o mais discreta possível, a beleza continua a ser excepcional, e afinal somos todos bonitos quando acreditamos nisso, saiu da água e gotas perfeitas revestiam-na de uma aura especial, reparei então que mais ninguém a olhava e concluí, como se fosse alguma novidade ou eu alguma espécie de filósofo, que afinal a beleza está em quem vê.

Regressei ao meu posto de origem. A família continuava lá, espalhada em redor, a invadir espaços alheios, alguns jogavam raquetes, outros cartas, um lia ken follet, dentro da enorme tenda não estava ninguém. Não vi em nenhum lado a senhora de uma certa idade, invadiu-me um sentimento de falhanço, há coisas que um observador não pode deixar de assinalar. A velha, onde estava a velha? Foi então que a vi, a sair do mar. Caminhava lentamente, apoiada em ninguém, as roupas molhadas, o cabelo escasso colado à nuca. Passou pelos outros, ninguém lhe dirigiu a palavra, entrou na tenda, solitária, e deitou-se no seu canto.

Resolvi então ir-me embora, atacado por uma espécie de nostalgia. Caminhei entre eles e a tenda, ouvindo-os falar entre si em francês. Uma típica família portuguesa.
Professor da Católica Estudos Políticos