É verdade que, neste momento da conjuntura mundial, ninguém quer estar na pele dos dirigentes políticos incumbidos de resolver o problema da pandemia… Dito isto, ninguém colocou melhor a questão do que o primeiro-ministro português ao levar-nos da «emergência» que ainda não acabou para uma «calamidade» que apenas começou! Ainda o «desconfinamento» não se iniciou e, ao mesmo tempo, tão pouco ou nada se sabe acerca do que virá ou não da União Europeia, já se sente nitidamente que a passagem entre Cila e Caríbdis está longe de ter terminado. Não basta voltar às ruas nem, infelizmente, voltar ao trabalho quando o problema é o da insolvência das empresas e o correspondente desemprego.

Segundo especialistas da saúde, após menos de um mês e meio de pandemia, já temos um «excesso de mortalidade» muito maior do que aquele que a DGS atribui diariamente aos óbitos provocados pelo coronavírus. Com efeito, não faleceu apenas um milhar de pessoas. Já morreram muito mais do que a média dos últimos anos na mesma época e, se alguns atribuem isso à falta de contagem dos óbitos pela DGS, outros atribuem-nos a pessoas que, durante a «emergência», ficaram sem acesso a cuidados médicos.

Entretanto, um economista como o Prof. Abel Mateus fez uma excelente síntese comparativa dos custos humanos e sociais da crise, não deixando muita margem de ilusões acerca de uma rápida recuperação económica desejada por todos mas que nenhum país ainda empreendeu com êxito, nem sequer a China. Quanto aos óbitos causados pelo vírus, calcula que são o dobro dos apresentados pela DGS!

Ninguém sabe ao certo quanto as economias irão cair nem tão pouco se e quando o vírus voltará a atacar, forçando a novo confinamento. O simples facto desta incerteza é prejudicial para a confiança necessária à tomada de decisões financeiras e empresariais. Já se percebeu que uma das calamidades que está na actual agenda portuguesa é essa estatização da economia em que os fiéis da «geringonça», desde boa parte do PS até à extrema-esquerda, nunca deixaram de acreditar, apontando logo para a mesma TAP que o PS só não vendeu porque o comprador faliu…

O actual ambiente nacional e internacional também não favorece o regresso dessa indústria de baixa produtividade que é o turismo, apesar das ilusões locais e de alguns estrangeiros que marcaram férias de verão… Ora, a situação dos capitalistas portugueses é tal que já suplicam ao governo que intervenha: isso mostra a fraqueza em que se encontram! Nestas condições, que são comuns à Itália e à Espanha, não admira que a UE hesite em dar-nos dinheiro sem aumentar a enorme dívida que o governo não quis amortizar, limitando-se a renová-la a juro mais baixo. Como calamidade, dificilmente poderá ser muito melhor do que há dez anos quando o PS nos levou pela terceira vez à virtual falência!

Neste contexto previsível, que a descoberta e difusão de uma vacina não alterarão tão cedo, infelizmente, a tendência será para o fechamento económico de cada país e para a adopção de políticas autárquicas, sem excluir a possibilidade de uma cisão na UE que remeteria os países do sul da Europa para uma situação que conheceram no passado mas da qual se esqueceram. A estatização e o proteccionismo são, em todo o lado, a massa de que é feita esse governamentalismo implantado em Portugal pelo PS a fim de nos fazer crer num poder e numa eficácia que não possui. Antes pelo contrário.

A ameaça de funcionarizar o desemprego que está a alastrar no país neste momento não é, de certeza, a solução para uma calamidade da qual não se sairá sem um aumento substancial da produtividade sócio-económica num novo contexto tecnológico que virá sem qualquer dúvida quando o vírus for finalmente domesticado. Pode demorar mais ou menos tempo, mas não é pela porta de trás que se sairá do presente estado de calamidade. As tendências «facilitistas» como aquelas que aparentam predominar cada vez mais na educação e na investigação científica foram acentuadas durante a pandemia e nada farão para qualificar a sociedade portuguesa de modo a esta poder competir com os nossos actuais sócios na UE, sob pena de sermos postos de lado.

A dar-se essa ruptura sob a ilusão de não se sabe que futuro viável, cairíamos fatalmente dessa feita sob o domínio político de uma ideologia insensata e interesseira de um passado mais feliz que, na realidade, nunca existiu ou, se existiu, para muito poucos terá sido. A primeira calamidade que temos de superar nos dias e semanas imediatos, enquanto não nos acontecer nada pior, é a do próprio «desconfinamento», cujas dificuldades objectivas e subjectivas ninguém se atreve a prever. As intenções são sempre boas mas nada garantem!