Por razões étimo-fonológicas complicadas que não vêm ao caso, «despoletar uma bomba» significa tirar a espoleta e, portanto, impedi-la de explodir, e não o contrário como se lê demasiado muito frequentemente… Com isto, quero dizer que vem aí – ou o Partido socialista assim o crê – uma bomba política que precisa de ser despoletada antes que ela rebente em plena campanha eleitoral do ano que vem. Essa bomba chama-se Sócrates. Sem julgamento, o homem é uma bomba prestes a rebentar cada dia que passa. Com julgamento, seria certo e sabido, como se pôde ver antecipadamente nas recentes emissões televisivas dos interrogatórios do «animal feroz».

Com Manuel Pinho, que se deixou entretanto apanhar de tal modo nas malhas fatais do processo «Marquês», o qual também se poderia chamar «O escândalo BES» ou simplesmente «O dono disto tudo», com o refúgio de Pinho em parte incerta, o risco de explosão subiu ainda mais. Finalmente, com as dúvidas permanentes, por mais não sabemos quantos meses, se a actual Procuradora Geral, Joana Marques Vidal, vê ou não o seu mandato renovado e se o mega-processo de Sócrates e cúmplices vai ou não a julgamento em breve, já não era possível ao PS arriscar-se a que o caso expluda na praça pública em plena campanha eleitoral.

É bom não esquecer que uma parte ignorada – mas certamente considerável – de votantes do PS nas legislativas de 2015 desconhecia por completo que o líder do partido iria aliar-se com o PCP e o BE a fim de evitar aliar-se ao PSD e ao CDS para chegar ao governo ou, simplesmente, ficar de fora e deixar governar a «PàF». Neste último caso, seria a chamada «direita» a beneficiar da saída limpa do atoleiro financeiro em que Sócrates e o seu governo tinham mergulhado o país e a aproveitar a retoma do crescimento económico mundial. Se esses eleitores enganados do PS soubessem que o partido iria aliar-se com os seus adversários de sempre, que no passado já se haviam aliado à tal «direita» para derrubar o PS em finais de 1977, possivelmente muitos deles ter-se-iam abstido ou votado de outra maneira!

O PS sabe, pois, que a aliança que tem mantido com a «extrema-esquerda» lhe tirará muitos votos que ajudariam à «maioria absoluta» e precisa desesperadamente desta para se desembaraçar da «geringonça» e para fazer frente à inversão de políticas exigida pela União Europeia, pela inversão mundial das tendências de crescimento e pela própria complexidade da situação internacional, que já deixou Portugal lamentavelmente de fora das alianças ocidentais. Entretanto, o novo PSD de Rui Rio já deu mostras de poder vir a ser uma muleta útil, se não mesmo indispensável, para a continuação do domínio do PS sobre o aparelho de Estado e para a sua manutenção do poder.

Neste quadro, muito mais grave do que as ameaças nunca cumpridas do presidente da República («Ai, eu deito abaixo o governo… e marco eleições!»), é a eventualidade de um «animal feroz» à solta na comunicação social e, pior ainda!, no tribunal. Quanto a mim, tão importante como o caso lamentável de Manuel Pinho, que já não era muito palatável quando esteve no governo, foram as emissões televisivas dos interrogatórios de Sócrates que desencadearam os receios do PS quando o viram, por assim dizer, à solta. O homem mostrou-se do estilo «morra Sansão e todos os que aqui estão»!

Daí a manobra florentina de os entregar – Sócrates e os seus numerosos cúmplices de todos os tamanhos e feitos – à sua merecida sorte. E sem mais nem menos, o presidente do partido, já embaraçado com os «prémios financeiros» oferecidos pelo parlamento com o dinheiro dos contribuintes, assumiu o encargo de entregar os acusados à bicharada. É o far-west à portuguesa! O primeiro-ministro mostrou-se surpreso e pesaroso mas não podia deixar de trocar a proclamada isenção perante a justiça pelas duras realidades da política partidária. Seguiu-se a descoberta da «verdade» pelo resto dos porta-vozes enquanto os amigos e admiradores do «animal feroz» se perguntam o que fazer perante a «traição» do partido…

Como comecei por dizer, compreende-se a necessidade em que o PS acabou por se encontrar de interiorizar o sério problema posto por Sócrates e de, finalmente, eliminá-lo pela adesão à vox populi que execra o personagem do antigo primeiro-ministro do PS, por sinal o único que conseguiu alcançar, com a ajuda prestimosa do presidente da República de então (2005), a maioria absoluta dos deputados. Trata-se, muito simplesmente, de cortar o membro contaminado a fim de preservar a aura de impoluto que o partido tem de manter.

Resta saber se a dita vox populi permitirá ao PS resolver o seu problema com esta facilidade. Por outras palavras, resta saber se a bomba foi despoletada a tempo. É a altura de fazer sondagens e, descontando o universo galopante dos abstencionistas escondidos pelas agências de comunicação social, voltar ao cardápio habitual das medidas para todos os gostos a anunciar diariamente, como se os problemas de fundo do sistema político e económico português se resolvessem com tais «paninhos quentes»!