A acção política pode ter objectivos – e um horizonte de futuro com ambições longo prazo.
Mas a acção política pode também reger-se apenas pelo cálculo político da navegação à vista.
Aquilo que aconteceu nestas eleições à candidatura de Marques Mendes traduz bem o impasse a que o calculismo de Luís Montenegro conduziu o PSD e nosso centro-direita tradicionais.
Desde que Montenegro chegou primeiro à liderança do partido e depois à chefia do Governo que se percebeu que aquilo que o movia não era um impulso reformista. Nem verdadeiramente uma visão para o país.
Montenegro quis substituir António Costa governando à António Costa, isto é, estando sempre mais preocupado em não arriscar políticas impopulares de forma a nunca comprometer as suas hipóteses eleitorais num calendário que não controlava porque nunca teve maioria para controlar. Antes não fazer nada do que perder as próximas eleições.
Montenegro não chegou ao Governo como Sá Carneiro, que encarnava um projecto de transformação do país (e do regime, que ainda estava sob tutela militar), e por isso nunca imaginou sequer que fizesse sentido, e fosse percebido pelo eleitorado, uma meta tão ambiciosa como “uma maioria, um governo, um presidente”. Esse pedido que Sá Carneiro dirigiu aos portugueses ancorava-se numa ambição para Portugal – a ambição de um Portugal diferente, não apenas a ambição de um Portugal capaz de gastar os fundos do PRR até ao último centavo.
Montenegro também não chegou ao governo como Cavaco Silva, que começou por ganhar o PSD correndo o risco de apostar no apoio ao candidato presidencial Freitas do Amaral, e que governou em minoria sem receio de entrar em choque com muitos poderes instalados. Freitas não conseguiu ser eleito em 1986, mas a primeira maioria de Cavaco em 1987 também é devedora dessa aposta – tudo fazia parte de um projecto que fazia sentido e que também por isso acabou por triunfar.
Há mais exemplos na história do PSD – o mais recente é Pedro Passos Coelho – que fazem o que precisa de ser feito em vez de fazerem apenas aquilo que parece que pode ser feito, mas Luís Montenegro nunca achou que pudesse ir por aí.
Neste quadro, a candidatura de Marques Mendes fez todo o sentido – Mendes também sempre foi um “tático”, e Mendes parecia até poder vir a ser um Marcelo mais colaborante (sobretudo alguém que não olhasse para São Bento achando que o conselho de ministros estava na mão de provincianos e rurais…). Mendes parecia ser a aposta de risco mínimo, a repetição da fórmula do “candidato da televisão” amigo dos jornalistas, o candidato com o amparo de boas sondagens e sem dar quaisquer sinais de que quisesse mudar algo de substancial naquilo a que agora se chama (erradamente, perigosamente) “o regime”.
Só que acontece que quem navega sempre à vista de costa acaba um dia por encalhar num recife. Já quem corre o risco do mar alto e de ventos adversos pode um dia “ir além da Taprobana”.
Os calculistas podem ir sobrevivendo mas raramente fazem a diferença, mas o mesmo não se pode dizer dos que arriscam.
Nestas eleições António José Seguro arriscou mesmo quando nenhuma sondagem o favorecia e os seus camaradas do PS conspiravam contra ele. Já fez a diferença e deve ter deixado muitos dos “calculistas das sondagens” a roerem-se de inveja.
André Ventura também arriscou e também ganhou. O mesmo podemos dizer de Cotrim Figueiredo.
O PSD preferiu a cobardia do calculismo e tudo indica que vai pagar caro essa sua tibieza. No mínimo o PSD, Montenegro, o Governo, necessitariam que nestas eleições se confirmasse a viragem à direita do eleitorado, que destas eleições saísse um mínimo de fôlego para que um governo frágil pudesse chegar à Assembleia e invocar o respaldo dos eleitores. Aconteceu-lhes exactamente o contrário – vão ter de ouvir o Chega e o PS a reivindicarem a bênção do eleitorado e a aumentarem as suas exigências negociais.
Se o país já estava paralisado e sem energia reformista, o cataclismo que aconteceu ontem ao candidato do partido que nos governa só pode aprofundar a convicção de que nada do que era importante que mudasse para fazer de Portugal um país mais moderno e competitivo vai acontecer. Deem os portugueses a vitória, na segunda volta, a Seguro ou a Ventura – mas sobre o que cada um deles possa representar falaremos mais tarde.
Quanto ao que estes resultados também representam no que respeita à reconfiguração da direita e do centro-direita, deixem-me só acrescentar uma previsão: o PSD só por milagre voltará a ter o papel central e indispensável que, apesar de todos os seus psicodramas, teve nos nossos primeiros 50 anos de democracia. Quem duvide do que aqui escrevo não olhe só para a votação nacional de Marques Mendes, olhe para o que lhe aconteceu nos centros urbanos. Há freguesias onde não parece ter ficado pedra sobre pedra do que em tempos foi o mundo laranjinha.
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