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Neste texto, a dupla derrota socialista refere-se às eleições na Europa, e não em Portugal. Em primeiro lugar, os socialistas voltaram a perder as eleições para o centro-direita (a terceira vez consecutiva). O Partido Popular Europeu voltará a ser o maior grupo politico no Parlamento Europeu. Esta vitória significa a derrota da ‘Europa social’, seja na versão financeira dos ‘Eurobonds’, seja na aspiração socialista de construir políticas sociais europeias. Hollande desejava a primeira, mas já percebeu que não tem poder para impô-la a Berlim. Schultz (o candidato socialista a Presidente da Comissão Europeia) fez campanha a favor das segundas. Mas Merkel respondeu-lhe no ultimo dia da campanha na Alemanha: “não há políticas sociais europeias; há políticas sociais nacionais.” Os alemães e os europeus deram-lhe razão. Deixando de lado o Reino Unido, nos restantes cinco maiores países da UE, os socialistas só ganharam em Itália. De resto, perderam na Alemanha, em França, em Espanha e na Polónia.

Há ainda uma segunda derrota para os socialistas: não conseguem captar os votos de muitos dos descontentes com a ‘maior crise do capitalismo’ desde os anos de 1930. Os descontentes estão a votar nos partidos anti-europeus de direita e de esquerda. E estão a abandonar os partidos socialistas. Veja-se o caso francês. Muitos eleitores que habitualmente votavam à esquerda, tornaram-se eleitores da Frente Nacional. Na Grécia, o eleitorado socialista fez a viagem oposta: foi para a extrema-esquerda do Syriza. Em ambos os casos, os respectivos partidos socialistas tiveram os piores resultados dos últimos dez anos.

Quais são as implicações para o partido socialista português, um dos poucos a ganhar na Europa? Em primeiro lugar, tal como nos resto da Europa, o PS não consegue captar os votos da maioria dos descontentes. Uns ficaram em casa, mas outros votaram no Partido Comunista. Por razões relacionadas com a história portuguesa do século XX, não há partidos nacionalistas em Portugal. Ou melhor, há o PCP, o partido mais nacionalista do nosso país: contra a globalização e contra a ‘Europa’. Tirando a questão da imigração (uma excepção importante), o PCP é o ‘nosso UKIP. Os símbolos e a ideologia são diferentes, mas as ambições (um país absolutamente soberano), a linguagem (ataques ao capital internacional e ao Euro), e até muito do eleitorado são os mesmos. E o PS não consegue travar o crescimento da ‘nossa’ Frente Nacional.

Além disso, as eleições europeias confirmaram que um possível futuro governo socialista estará isolado na Europa. Os espanhois, que aparentement têm uma boa memória, apesar da crise, parece que vão reeleger o PP. Hollande deixou de contar. Quem permite que uma Le Pen ganhe umas eleições europeias, morre politicamente. O SPD continuará a ser o parceiro pequeno de Merkel. Renzi que já percebeu tudo isto, e de resto não é socialista, estará mais interessado em manter boas relações com Berlim. E Seguro, se um dia for Primeiro Ministro, fará exactamente o mesmo. Resta saber como reagirá o PS se um dia tiver um PM a manter, no essencial, as mesmas políticas que o actual governo.

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