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Esta é uma das interrogações do momento. Com tantas mudanças nas nossas rotinas, de que forma estas irão transformar o sector da educação tal como o conhecemos? A crise da Covid-19 começou por provocar uma disrupção total no mercado de trabalho: se, por um lado, fez desaparecer algumas profissões, fez também emergir novos postos de trabalho, sobretudo na área da tecnologia, com a maioria das empresas obrigadas a mudarem para o digital.

Neste sentido, dada a força do universo tecnológico, é necessário refletir que caminho deverá o sector da educação seguir, para, por um lado, dar resposta às lacunas no mercado de trabalho e, por outro, combater o desemprego e o excedente de profissionais de sectores que viram a sua atividade enfraquecer em período pandémico. Sejam novas metodologias de ensino a ganhar vida ou mudanças no próprio currículo escolar, estas são algumas das tendências que acredito deverão marcar a educação no pós-Covid-19 e que já se fazem sentir nos dias de hoje:

  1. Um ensino mais prático – Para facilitar a entrada num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, é necessário criar mais “doers” e menos “followers”. Ou seja, é necessário passar de um ensino teórico, para um ensino cada vez mais prático, onde a base está em ensinar a “por as mãos na massa”. Neste sentido, temos assistido a um aumento de alternativas ao ensino tradicional que pressupõem dotar os alunos com as competências mais valorizadas no mercado laboral. Exemplo disso são os bootcamps, cursos curtos, intensivos e especializados, cujo objetivo principal é a inserção no mercado, que têm vindo a aumentar a sua base de alunos. De acordo com o relatório Tech Careers da Landing Jobs, deste ano, as entradas no mercado tecnológico através da realização de bootcamps cresceram de 3,2% para 4,8% durante 2020, não só entre pessoas que pretenderam reforçar as suas competências tecnológicas, como entre pessoas de áreas tecnológicas em busca de uma nova carreira.
  2. Promoção de literacia digital e tecnológica – No relatório “Nove Ideias para a Ação Pública – Educação, Aprendizagem e Conhecimento num mundo pós-covid-19”, a UNESCO aponta a literacia científica e tecnológica como o cerne do desenvolvimento do currículo, bem como a importância dos recursos educativos e ferramentas digitais de livre acesso para todos. É assim fundamental, capacitar a comunidade escolar com competências digitais e tecnológicas, que permitam aos professores adaptar mais rapidamente as suas metodologias ao ensino à distância e criar formas inovadoras de ensinar em sala de aula, e aos alunos conseguir acompanhar a evolução do mercado de trabalho e ter acesso a novas ferramentas de aprendizagem.
  3. Um ensino mais humano e personalizado – A proximidade entre professores e estudantes também foi posta à prova neste último ano, com o ensino à distância a mostrar a importância das relações interpessoais. Como tal, é preciso criar um maior sentimento de empatia nas escolas, principalmente para preparar os alunos para momentos de crise como este. Nenhum estudante é igual ao outro e, por isso, o ensino deve ser mais personalizado e focado no desenvolvimento das soft skills de cada um, pois, além das competências técnicas, estas são cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho. Competências como proatividade, resiliência e criatividade fazem muitas vezes a diferença entre o sucesso e o fracasso no crescimento pessoal e profissional de um aluno. Nesse sentido, a escola deve deixar de ser apenas uma obrigação, igual para todos, mas sim um espaço de valorização pessoal, um espaço de partilha, que deseja saber as necessidades dos seus estudantes e prepará-los para o futuro, de acordo com as exigências do mercado.
  4. Uma aprendizagem mista entre o remoto e o físico – apesar dos desafios que o ensino à distância trouxe para professores e alunos, também abriu novas oportunidades. O ensino remoto encurtou a distância entre geografias e democratizou o acesso ao ensino em diferentes áreas, pelo que o futuro deverá ser ditado por uma aprendizagem mista que combinará momentos assíncronos com momentos síncronos, permitindo que os alunos interajam uns com os outros, com seus professores e com o conteúdo educativo, tudo em simultâneo.

Se olharmos com atenção para o contexto escolar atual, vemos como os currículos não mudaram nos últimos 50 anos. No entanto, o mundo mudou, sobretudo durante a crise que vivemos nos dias de hoje. Como tal, este contexto exige uma reflexão profunda sobre como queremos educar e formar a sociedade num período pós-pandemia. É urgente uma educação mais personalizada que permita o desenvolvimento de soft skills e competências técnicas cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho. É urgente criar novas metodologias de ensino e começar a olhar para o formato bootcamp e curso intensivo como um caminho a seguir e não apenas como um complemento às escolas tradicionais. É urgente adaptar a educação que conhecemos hoje e preparar jovens e adultos para um “admirável mundo novo”.

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