É preciso erguer punhos. Dizer basta! Lutar em massa. Em Katra Shahadatgani, uma aldeiazinha situada no estado de Uttar Pradesh, na Índia, duas adolescentes são encontradas no cimo de uma grande árvore. Os seus corpos, inertes, balançam durante dias, enquanto um dos pais, com olhos suplicantes, afirma que a polícia gozara consigo quando, desesperado, pedira ajuda para encontrar a sua menina desaparecida – “riram-se de nós quando perceberam que somos de uma casta inferior”. As duas adolescentes, com 14 e 15 anos de idade, cujo sangue se lhes cravou sob a superfície das pernas, foram brutalmente violadas por cinco homens, quando saíram à rua para irem à casa de banho, numa zona onde muitas casas não têm condições sanitárias.

Este trágico acontecimento, outrora notícia em múltiplos jornais nacionais e internacionais, mostra a título de exemplo uma Índia onde as estatísticas, enquanto elemento meramente representativo, apresentam-nos números absolutamente assustadores, ainda que longe da realidade de um país onde a mulher é vista como um boneco de castigo pelos seus comportamentos inaceitáveis e os crimes, quase sempre, são justificados pela boca cruel de um macho indiano, acreditando vivamente que a culpa é delas: ou pela má escolha de roupas, ou por andarem na rua durante a noite, ou por defecarem numa zona onde não existem casas de banho, ou por, mesmo em pleno direito civil, apresentarem queixa numa esquadra da polícia e recusarem tirá-la, ou melhor, como tantas vezes eu lera, por terem resistido em fazer sexo! Pois então, estas mulheres, de rostos anónimos, assustados e perdidos ora em ruas desérticas ora em ruelas fervilhantes, caem diariamente na desgraça de todos aqueles que acreditam que, parem serem homens, verdadeiros homens, precisam de exercer uma certa violência sobre as mulheres. O leitor deve sentir, é suposto sentir, que um arrepio de espanto lhe percorre corpo acima e se espalha nos seus olhos com profundo rancor e desmedida preocupação – e pode sentir nojo, sem problema, se assim o quiser, pois todo e qualquer acto de mudança começa sempre, em primeiro lugar, por uma incontrolável e profunda sensibilidade sobre o assunto.

Em Uma Lágrima na Face da Índia, um romance da minha autoria, o personagem literário Noah depara-se com um país que o agarra pelos ombros, sacode-o com uma espécie de pedido de ajuda e provoca em si calafrios nervosos, lágrimas, raiva, e uma vontade louca e incessante de fazer alguma coisa, de seguir instintivamente mais para diante e desafiar as tradições de um país onde as relações sexuais ou acto sexual por um homem com a própria mulher, não tendo ela menos do que quinze anos, não é violação. Ora, estas últimas palavras, por si só, são o reflexo do poder e impunidade que o homem exerce sobre a mulher. “Algumas pessoas defendem que a violação sexual no casamento não deve ser punida para não colocar as famílias sob stresse e devido a questões culturais e religiosas. Repare, leitor: se a Índia é uma sociedade patriarca, onde o homem lidera a casa e vê a mulher como um ser inferior… só porque é uma mulher, ela tem de se sujeitar a fazer o que ele manda. Muitos entendem que se eles quiserem ter relações sexuais, é obrigação da mulher aceitar, porque quando casa com o homem, ela já sabe que é esperado que ele domine em todas as esferas da vida. Quando ele, por algum motivo, não tem o consentimento dela, adquire-o através da violência. Com a permissão ou não punição deste comportamento dentro de um casamento, estão a proibir o direito de as mulheres dizerem “não”, perpetuando assim a violência ao longo de todo o casamento. Os homens sabem, no fundo, que estão protegidos” (pode ler-se em Uma Lágrima na Face da Índia).

Aqui, nesta Índia que se orgulha da sua cultura, num dos piores países do mundo para uma mulher crescer e viver, numa das maiores potências económicas do mundo, centenas de milhares de mulheres dalits (frequentemente chamadas intocáveis), são uma sombra negra a deambular entre as margens da sociedade. Ninguém lhes toca. Ninguém lhes fala, como se Deus se tivesse esquecido delas, como se as próprias vacas, ali sagradas, tivessem mais sorte, porque pelo menos, ouvi uma dalit dizer, rezam por elas!, e por isso, muitos se estão a renunciar ao hinduísmo e agora são budistas, acreditando que a sua religião criou um sistema de castas que separa homens e mulheres, gerando desigualdade e violência. Não podem utilizar transportes públicos, não podem beber água das fontes, não podem

receber dinheiro, e são-lhes entregues, em qualquer parte, os trabalhos mais desprezíveis, como limpar excrementos humanos. Aqui, nesta Índia, que se orgulha de uma das maiores provas de amor de todos os tempos, o famoso Taj Mahal, a mulher é indesejada como em nenhum outro lugar o é. Aqui, para evitarem dotes caros, numerosas famílias atiram a vida de meninas recém-nascidas para debaixo de terra, encerrando-a com panos de água sobre a face, pondo-lhe veneno no leite ou, ainda, deixando-a morrer sob má nutrição, pois assim não é considerado homicídio.

De novo: é preciso erguer punhos. Dizer basta! “Não chega ceder à mulher o nosso lugar no transporte público, abrir-lhe o guarda-chuva num dia chuvoso ou o direito de ela exercer funções na vida pública e política: é preciso parar de a ver como um instrumento de prazer e castigo. É precisamente a ideia que se mantém dela, desde a infância até à morte, que perpetua a sua escravatura, enquanto ser inferior ao homem. E enquanto essa ideia durar, a mulher continuará a ser escrava e humilhada. Os homens julgam que a podem controlar, e ela sabe-o que não o podem fazer, mas a ideia persiste profundamente enraizada.” É tempo de valorizar as mulheres toda a sua competência e inteligência, por toda a sua sensibilidade e amor, e, sobretudo, pela sua própria dignidade. É tempo de todo o homem ser homem a amar e nunca a odiar, porque, como disse Nelson Mandela: “Ninguém nasce a odiar outra pessoa devido à cor da sua pele, ao seu passado ou religião. As pessoas aprendem a odiar, e, se o podem fazer, também podem ser ensinadas a amar, porque o amor é mais natural no coração humano do que o seu oposto” (in Uma Lágrima na Face da Índia).

Se todo o homem existe agora, a elas o deve, pois sem elas toda a nossa existência seria só.

Basta.

Escritor