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1 Destinados à servidão?

Dizia Einstein que não podemos ambicionar resultados diferente se continuarmos a fazer as mesmas coisas. Dito isto, enquanto coletivo, enquanto país, não podemos ambicionar pela mudança se continuarmos a votar nos mesmos que trouxeram o país para esta fatídica situação –   caminha para a condição de país mais pobre da União Europeia.

É um facto que este nosso triste fado já se arrasta há séculos testemunhada nos escritos de Eça de Queiroz e Guerra Junqueiro ou, nas célebres ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro. Não menos importante do que esta fatídica situação é o sentimento de um permanente degradar da nossa Democracia nos últimos anos com a erosão das instituições.

A chamada de atenção do Eurodeputado Esteban Gonzalez Pons, em pleno Parlamento Europeu ao governo português, no âmbito da polémica em redor da nomeação do Procurador Europeu, é um sinal sério de alarme, de alerta vermelho para a vitalidade da nossa Democracia. Se internamente o governo vai passando pelos pingos da chuva após as polémicas com os fogos de Pedrogão, Tancos, caso SEF, falsos currículos ou do nepotismo no governo, o sentimento de impunidade encontrou eco junto de altas instâncias europeias.  Um triste dia para a Democracia Portuguesa.

2 Da importância do bom exercício Presidencial

Tudo isto a propósito das próximas eleições Presidenciais.

Sendo certo que as eleições de 24 de janeiro não são para eleger governo a verdade é que a eleição do próximo Presidente pode e deve ter um papel decisivo no futuro do país. A dois níveis – no garantir do normal funcionamento das instituições e promotor de estabilidade nacional – através da magistratura de influência, sempre no estrito cumprimento da Constituição.

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A Magistratura de influência é umas das armas mais subtis que um Presidente da República pode e deve exercer durante o seu mandato. Quer junto do governo, das instituições, da sociedade civil, mas também junto dos demais partidos, em particular nos da oposição. É sentir o pulso ao país, auscultando os seus diversos atores e procurar influenciar o governo nas questões estruturais para a prosperidade do país e dos seus cidadãos. Por a Democracia a funcionar.

Ora, chegados a este ponto e estando Portugal numa situação difícil, nomeadamente para as gerações vindouras e na salvaguarda da nossa Democracia, há que levar em conta que considerações e critérios devem ponderar na decisão ao voto no próximo dia 24. Há que ser pragmático na hora da escolha. Não votar em estados de alma (tendo em conta as querelas superficiais da campanha) mas sim olhando para os últimos 25 anos e para o estado de degradação democrática em que o país se encontra.

3 Dois blocos de candidatos | Dois caminhos distintos.

E nisto, temos dois blocos de candidatos distintos. Uns que continuarão a ser parte do problema, outros da possível solução: Ana Gomes, Marisa Matias e João Ferreira e Vitorino Silva por um lado, André Ventura, Tiago Mayan Gonçalves por outro. Quanto a Marcelo de Rebelo de Sousa – o político que há mais tempo se encontra na vida política ativa em Portugal – por uma questão de honestidade intelectual, coloco numa condição singular, explicando mais adiante porquê.

Quanto ao primeiro grupo, exceptuando Vitorino Silva, está mais do que identificado a razão da sua composição. Por comungarem do mesmo espaço ideológico, mas acima de tudo por serem o rosto dos partidos que nos últimos 25 anos têm conduzido o país à estagnação. Tal como já afirmei, não podemos ad eternum protestar e barafustar e continuar a votar nos mesmos…

4 Os candidatos e os discursos de sempre.

Ambicionar mudança e votar nos mesmos que nos trouxeram até aqui?

Nada irá mudar votando em Marisa Matias, Ana Gomes ou João Ferreira. Para além de não apresentarem nenhuma proposta ou medida alternativa de fundo para alterar o rumo fatídico do país, partiram na condição de derrotados. Marisa Matias assumiu isso no debate com Marcelo. Apenas fez pausa em Bruxelas para fazer um frete ao seu partido. Ana Gomes apenas pretende ganhar capital político para outros voos no Partido Socialista.

Quanto a João Ferreira, ainda não saiu do século XIX, não percebeu que o mundo mudou, que o muro de Berlim caiu e deveria fazer uma viagem ao paralelo 38, visitando as duas Coreias.  Não deixa ser curioso ser o candidato como maior dotação orçamental para a campanha (€ 450 000), quase trinta vez mais do que Vitorino Silva.

Quanto a Vitorino Silva é difícil levá-lo a sério. É a segunda vez que se candidata ao cargo, sem que tenha valorizado a campanha com algo de diferente dada a sua alguma experiência e ser conhecido junto da maioria dos portugueses. Perdeu uma excelente oportunidade para marcar diferença.  A política é muito mais do que metáforas com humor. Há que ter uma visão de fundo para o país e Vitorino não evoluiu nesse sentido

5 As novidades na campanha

Quanto ao segundo grupo, por serem a voz de protesto contra o estado a que o país chegou. Sendo que neste contexto — apesar de ser uma cara nova para os portugueses, enquanto político no palco mediático — Tiago Mayan Gonçalves teve o mérito em não apenas elencar os nossos problemas, mas também em indicar soluções, uma alternativa para futuro. E para quem teve logo no seu primeiro confronto o homem que em Portugal anda há mais anos anda na ribalta das televisões e media, Tiago não esteve mal.

Por outro lado, André Ventura, que de forma mais assertiva tem vindo a ser a voz mais critica contra o sistema em Portugal.

Ora, estranho seria se, num país que não cresce economicamente, cuja corrupção respira por todos os poros nas suas instituições, que não cria oportunidades para os seus jovens, onde a meritocracia apenas funciona para gente portadora de cartão militante de um partido, cujo mercado da habitação é incompatível para a carteira da maioria dos seus cidadãos não tivesse gente desapontada, desiludida e sem esperança e que não votasse num partido diferente.

À parte de todas as contestações que se possam fazer contra este candidato existem três considerações que devem ser levadas sobre o crescimento do CHEGA:

  1. Ausência de representatividade política – um enorme vazio no espaço do espaço política de Centro-direita/Direita em função das lideranças de Rio e Rodrigues dos Santos.
  2. Dor de crescimento – André Ventura tem o problema de ser vítima do seu próprio sucesso. O CHEGA cresceu muito rápido e nesse crescimento acolheu todo o tipo de desencorajados e desmotivados que há muito não tinham representatividade num partido político em Portugal. Ou pior, que deixaram de ter representação junto dos seus anteriores partidos. Podemos dizer que o André e o partido sofrem as dores do seu rápido crescimento. Tem ainda um caminho a percorrer.
  3. Imprensa e pensamento monolítico hostil – Há muito que, quer os partidos de esquerda, quer a imprensa em Portugal ansiavam por um “radical” da direita em Portugal. André Ventura e o CHEGA são um manancial para os media e uma “lufada de ar fresco” para a nova intifada dos partidos de esquerda. É o vilão que precisavam para dar mais cor à sua luta política. Por paradoxal que possa parecer Ventura e CHEGA são um bálsamo para a imprensa de pensamento monolítico que vigora em Portugal, suportados pelos intelectuais da nova esquerda que se alimentam como nunca desta novidade no espectro político português.

Assim, mais dia, menos dia, André Ventura terá que tomar a decisão sobre o futuro do CHEGA nos destinos do país. Ou mantém-se como partido de protesto, mantendo o mesmo discurso de divisão e acantonando os mais radicais ou, modera o discurso, perfilando-se enquanto partido viável para solução de governo num futuro próximo.

Contudo, e não condenando quem vote André Ventura (pelas razões supras expostas) não poderia votar em alguém que, enquanto candidato à presidência da República, vem afirmar que não será Presidente de todos os Portugueses. Isso é promover a divisão no seio da sociedade portuguesa. É fazer exatamente aquilo que o Bloco de Esquerda e o LIVRE têm vindo a fazer nos últimos anos com as suas políticas identitárias.

6 O factor Marcelo Rebelo de Sousa

Garantir o normal funcionamento das instituições e promover a coesão nacional. Duas dimensões onde o actual Presidente da República claramente falhou nos últimos 5 anos. Desde 2016 o país não só não cresceu economicamente como deveria (acima dos 3%) como também vivenciou um ataque sem precedentes à sua unidade nacional, sob o seu legado histórico e identitário, através das políticas identitárias da esquerda radical com foco no racismo e ideologia de género.

Porém, e apesar das mortes no Verão de 2017 e do furto de armamento militar em Tancos a verdade é que os portugueses voltaram a reeleger esta maioria parlamentar e consequente governo liderado pelo partido Socialista em 2019. Por uma razão simples: não existe alternativa a este governo em quem os portugueses confiem e este é maior problema que a Democracia Portuguesa vive neste momento. Pior do que um mau governo é a inexistência de alternativa a esse governo.

Ou seja, Marcelo não poderia correr o risco de dissolver a Assembleia da República sob pena de posteriormente ficar numa situação institucional complexa, com uma nova maioria parlamentar de esquerda e novo governo liderado pelo mesmo Partido Socialista. Mas Marcelo também não tinha de andar com o mesmo governo ao colo, temendo a sua popularidade e reeleição.

O facto é que o degradar das instituições democráticas patentes no caso SEF ou no Procurador Europeu são mais do que evidentes e minam a confiança dos Portugueses nas instituições do Estado. E isso é mau para a Democracia. Não seria de todo descabido dissolver a Assembleia e devolver a palavra aos portugueses.

7 Em quem votar?

Tudo somado e analisado, em quem votar ?

Tendo exercido o meu direito de voto antecipadamente não poderia votar em que defende que este estado de pântano político, com o sucessivo degradar das instituições, se prolongue por mais três anos, ao defender o cumprimento da presente legislatura, a bem da estabilidade governativa, como sugere Marcelo.

Isto não é estabilidade governativa. É paz podre. A curto-médio prazo: temos uma situação pandémica por resolver, eleições autárquicas em outubro e eleições para o maior partido da oposição daqui a um ano. Muito ainda pode acontecer em política no espaço de um ano. Imagine-se três! Isto de querer agradar a DEUS e ao Diabo em política nunca deu bom resultado.

Por outro lado, não poderia votar no mesmo candidato indicado e apoiado pelo Partido Socialista na pessoa do seu Secretário-geral e Primeiro-ministro que tem sido o rosto de degradar das nossas instituições na Justiça, na Saúde, Administração Interna ou na Educação, com os escândalos de Tancos, Pedrógão, Borba, SEF, ou do Procurador Europeu.

Votar em Marcelo Rebelo de Sousa soa a votar no candidato do regime que repetidamente tem violado a jovem Democracia Portuguesa e adiado a esperança num Portugal melhor.

Portanto, e sem desconsiderar quem vote em André Ventura (cada um sente a sua dor de forma diferente) votei em Tiago Mayan Gonçalves. Por três razões fundamentais:

NOVIDADE – estamos sempre a criticar que a política portuguesa é feita pelos mesmos de sempre e quando aprecem novas figuras, desconsideramos. Tiago foi uma interessante personagem nos debates.

ALTERNATIVA – Mayan foi o único a indicar que existe alternativa ao socialismo que tem definhado o país. Sendo certo que a Iniciativa Liberal tem um papel hercúleo em passar a mensagem junto dos portugueses, o facto é que um novo caminho foi apontado. Tiago Mayan Gonçalves deixou mensagens fortes durante os debates. Mais importante: não é o Estado quem cria riqueza. São as empresas. Há que libertar as empresas da quantidade enorme de impostos a que se encontram sujeitas e criar melhores condições de investimento no país, por forma a criar mais emprego e mais riqueza.

CORAGEM – foi um dos factos mais interessante em todos os debates e menos comentado. O confronto entre o menos preparado dos candidatos e o candidato que há mais tempo anda nas lides políticas e com maior à vontade nas televisões. O que não coibiu Tiago Mayan Gonçalves de proferir a frase mais certeira nos debates.

No essencial, Tiago Mayan deixou esta forte mensagem a Marcelo Rebelo de Sousa, apontado como o mais que provável vencedor nestas eleições: “Se o Senhor for eleito arrisca-se a terminar o seu próximo mandato com o país mais pobre da União Europeia”…

E é sobre isto que devemos reflectir quando formos votar.