Portugal está a entrar por um caminho de destruição do seu património histórico-cultural. Ninguém faz nada em relação a isso. As forças políticas parecem não querer ter nada a ver com isso – sem ser um caso ou outro onde de facto se verificam propostas nesse âmbito.

Podemos começar esta nossa reflexão oferecendo apenas dois casos que me parecem paradigmáticos do ponto de vista do desmazelo em que foram colocados alguns destes edifícios um pouco por todo o país. Comecemos por Algés, onde encontramos neste espaço geográfico um monumento que poderia ser muito bem aproveitado sob a perspectiva de se planear e construir um pólo relevante do turismo cultural. O património a que me estou a referir é o Convento de São José de Ribamar, edificação de meados do século XVI (para ser mais preciso, do ano de 1559 – como nos informa a obra setecentista de Frei Apolinário da Conceição, Claustro Franciscano […]) e fundado por D. Francisco de Gusmão e sua mulher Dª. Joana de Blasbelt – aia da então Duquesa de Viseu e Infanta de Portugal, Dª. Maria –, que se encontra, neste momento, na posse de privados. Este espaço, que condensa em si uma parte significativa da História de Portugal – o Cardeal D. Henrique chegou a estabelecer-se neste convento por alguns dias; é até bem provável que o religioso e poeta Frei Agostinho da Cruz (irmão do também poeta Diogo Bernardes, como nos informa a literatura oitocentista, veja-se o volume VII do Archivo Popular) tenha também estado por esta região, basta ganhar algum tempo lendo o poema “Ao triste estado” para percebermos, através da descrição, o local onde se encontrava esta figura –, poderia ser transformado, depois de adquirido pelas entidades públicas – como o Estado ou até a Câmara Municipal de Oeiras – num museu sobre a História da região. De certo, que serviria como um centro nevrálgico do passado numa região progressiva, de futuro. O concelho oeirense voltaria a recuperar uma parte da sua alma, pois a cultura também tem esse poder: entregar e relembrar aos cidadãos um pouco de si e do sentido de fazerem parte de uma entidade colectiva.

Porém, não é só Algés que tem um monumento com uma grande potencialidade no campo do turismo cultural ou até de habitação. Na Azambuja existe um Palácio, que de facto foi uma estalagem, denominado de Obras Novas. Escusado será dizer a importância deste edifício, mais que não seja pelas suas referências relevantes. Almeida Garrett, no seu livro Viagens na Minha Terra, menciona este monumento. O Duque de Palmela, no 3º volume dos seus Discursos Parlamentares, não fazendo uma menção directa a esta estrutura, faz na defesa da Vala Real. É importante a Vala Real da Azambuja, uma vez que é na foz desta que se situa o já mencionado Paço – marcadamente de influência neo-clássica, por isso, de meados a finais do século XVIII. É, assim, uma pena, uma revolta, uma frustração visualizar uma edificação como o Palácio das Obras Novas em ruínas – aliás, é bom que se diga, abandonado desde os inícios do século XX. Nada foi feito para a salvaguarda deste imóvel, e é urgente que se faça alguma coisa o mais rapidamente possível.

A Câmara Municipal da Azambuja, após anos de luta, e bem, na aquisição deste património ao Estado, encontra-se agora sem capacidade para a restauração do edifício – pelo menos é a interpretação que faço, porquanto este imóvel desde o ano de 2016, segundo a imprensa local, já se localiza na posse do executivo camarário e ainda não foi feito nada.

É calamitoso o cenário dos monumentos pátrios. Os responsáveis não são as Câmaras Municipais, é o Estado. Este último representa-nos enquanto nação politicamente organizada, isto é, somos todos nós. E surpreende-me como, passados todos estes anos, ninguém se insurge, ninguém se levanta a condenar a acção política que desencadeou todas estas ocorrências. Parece não existir um projecto consistente e orientado para o serviço da cultura do país. Se fosse alguma superficialidade com uma forte tendência lucrativa, alguma coisa seria feita. Como é algo relacionado directamente com a pessoa, com o colectivo, com a nação, nada feito – porquê? Não dá dinheiro.

Numa época como a nossa, onde se fazem petições por tudo e por nada, o essencial é esquecido. Ninguém quer saber, infelizmente, do significado e potencialidade da cultura; é esta à conclusão que chego. Mas eu quero. E tu? Queres?

Licenciado em História pela FLUL e Mestrando em História Medieval pela FCSH-UNL