Hoje, o treinador com o selo made in Portugal é um produto de exportação valioso, sinónimo de excelência, profissionalismo, competência e, incontornavelmente, de vitória. Em qualquer canto do planeta. Em final de temporada, e numa espécie de “volta ao mundo pelos feitos dos treinadores portugueses”, partimos rumo ao Médio Oriente onde, ao serviço do Al-Hilal, Jorge Jesus está a viver uma espécie de antecâmara para a reforma ao estilo das arábias. É dele o record do Guiness Book de maior número de vitórias consecutivas de uma equipa profissional de futebol.

Percorremos o Índico em direção a sul, dobramos o Cabo das Tormentas e seguimos pelo Atlântico até ao continente americano. No Brasil, vive-se uma epopeia de descobrimentos do talento do treinador português. Esta viagem foi iniciada por Jorge Jesus ao serviço do Flamengo, em 2019 e, agora, encontra em Abel Ferreira, que segura o leme do Palmeiras, o modelo de treinador por aquelas bandas.

Saltamos para África onde, depois dos feitos de Manuel José nos inícios dos anos 2000, José Gomes é quem reina por terras egípcias. Acaba de conquistar a Taça das Confederações Africanas pelo Zamalek, mas a senda de vitórias em solo africano pode não ficar por aqui. Miguel Cardoso, no comando dos tunisinos de Esperance Tunis, disputa no final deste mês a final da Liga dos Campeões, a maior prova de clubes de África, podendo, assim, elevar ainda mais esta ode do treinador português.

Mas se fizermos uma viagem, agora no tempo, percebemos que nem sempre foi assim. Nos gloriosos anos do Benfica de Eusébio, as vitórias europeias dos encarnados tiveram o toque indelével do húngaro Bella Gutman. Ainda nos anos 60 e 80, respetivamente, foram o brasileiro Otto Glória e o sueco Eriksson quem levaram o futebol português mais além.  O primeiro ensaio do ponto de viragem na construção desta meritória imagem de sucesso do treinador português ocorreu apenas no final da década de 80 quando, pela primeira vez, um treinador português – Artur Jorge – ousou uma grande conquista internacional ao erguer a Taça dos Campeões Europeus ao serviço do Porto.

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Aquele foi um ensaio para algo verdadeiramente transformador que ocorreu um pouco mais tarde, há precisamente 20 anos: a dupla e consecutiva conquista europeia do Porto de José Mourinho, materializada com a vitória da Taça UEFA e da Liga dos Campeões. Aquele feito fez, não apenas de Mourinho, mas também do conceito de “treinador português”, uma marca special one. Onde quer que ele milite.

Como algodão que não engana, importa olhar para as escolhas dos três grandes a este nível nestas últimas 20 temporadas. O banco dos Dragões apenas foi dirigido por dois técnicos estrangeiros (Adriaanse e Lopetegui). Neste mesmo período, em Alvalade quem mais tem rugido é o treinador nacional. De Peseiro a Rúben Amorim, 21 técnicos orientaram o Sporting. Apenas três eram estrangeiros: Vercauteren, Mihajlović (durante quatro dias!!!) e Marcel Keizer. No Benfica, em duas décadas, a tendência é similar: de um total de 13 técnicos cabem numa mão os que não têm nacionalidade lusa: Trapattoni, Koeman, Camacho, Quique Flores e Roger Schmidt.

Hoje, o treinador português é sinónimo de valentia. Adapta-se a contextos múltiplos. Não tem receio da ameaça da “chicotada psicológica”. Ousa mudar metodologias de treino e hábitos quotidianos em contextos sociais e culturais inóspitos. E, assim, tem inscrito a bandeira portuguesa na história do futebol mundial. Por tudo isto, o mister português transporta consigo uma imagem de marca dourada que faz dele um produto apetecível em qualquer mercado: a de que o treinador que é nacional é bom.