No dia 2 de Abril, Trump impôs tarifas comerciais de 20% à UE. Umas semanas depois, baixou para 10% e deu um prazo para negociações bilaterais até 11 de Julho. Mais tarde, estendeu o prazo até 1 de Agosto. Escreveu também uma carta a Von der Leyen, ameaçando com tarifas de 30% se não houvesse um acordo até 31 de Julho. Os EUA impuseram igualmente tarifas sectoriais, 25% para a indústria automóvel; e 50% para o aço e alumínio.

A inconsistência de Trump levou muitos a afirmarem que os acordos comerciais dependem dos caprichos pessoais do Presidente americano. É muito difícil prever as decisões de Trump, mas não é tão inconsistente como muitos sugerem. Há dois pontos consistentes em Trump. Em primeiro lugar, há muito tempo que se queixa dos défices comerciais dos EUA (desde o fim do século passado). Na verdade, os EUA têm um défice comercial em bens em relação à UE de cerca de 200 mil milhões de dólares anuais. Em Bruxelas, as contas incluem os serviços e não apenas os bens, e aí há quase um equilíbrio comercial transatlântico, com um superavit da UE de cerca de 50 mil milhões de dólares. Mas Trump é obcecado com bens físicos, e podemos concordar ou discordar, mas nisso Trump é consistente. Isso significa que o seu objectivo é acabar com o défice comercial em bens com a UE.

Em segundo lugar, Trump negoceia de um modo aparentemente caótico, com avanços, recuos e hesitações, mas não perde de vista o objectivo final. Vejamos o caso das relações comerciais com a UE. Com a ameaça de subir tarifas para 30%, colocou este número como uma ameaça a pairar sobre as capitais europeias. Se Trump agora adoptar tarifas de 20% ou mesmo de 15% (um acordo idêntico ao recentemente anunciado com o Japão), sobe as tarifas que existiam antes de chegar à Casa Branca, mas a UE aceitará porque “baixou” dos 30% (tarifa que nunca existiu). No caso dos carros, notamos a mesma táctica negocial. Quando Trump chegou à Casa Branca, a tarifa americana sobre os carros europeus era 2.5% (e a tarifa europeia sobre os carros americanos era de 10%; Trump não está completamente errado). Já aumentou para 25%. Se agora, baixar para 15% (como fez com o Japão), será uma “vitória” para a UE. Na verdade, aumentou a tarifa americana sobre os carros europeus de 2.5% para 15%.

Vamos supor que Trump oferece à UE um acordo semelhante ao do Japão: 15% de tarifas em geral, incluindo sobre os carros (não estou certo, por que o défice comercial dos EUA com a UE é superior ao défice com o Japão; por isso, não excluo uma tarifa geral de 20%). Desconfio que a UE aceitará, mesmo que a tarifa geral seja de 20%. A maioria dos países europeus prefere a certeza comercial com tarifas mais altas do que a incerteza de uma guerra comercial.

Mas além de aceitar um acordo comercial com um aumento de tarifas, a UE irá ainda oferecer concessões aos americanos. Vai comprar mais LNG, mais equipamento militar, e vai baixar as tarifas sobre os carros americanos e sobre produtos agrícolas (no sector agrícola, a UE tem igualmente um superavit comercial considerável em relação aos EUA; em 2024, os europeus importaram cerca de 13 mil milhões de produtos agrícolas dos EUA, e exportaram cerca de 36 mil milhões de dólares). No sector automóvel, desconfio que a UE também irá baixar as tarifas de 10%; para 0%?). 0% tarifas sobre a importação de carros dos EUA serve a Alemanha, já que a BMW e a Mercedes fabricam carros nos EUA que exportam para a UE. Aos franceses, os americanos provavelmente vão oferecer tarifas sobre o vinho e o champanhe inferiores a 15% ou 20%.

Mas há uma razão geopolítica que também impede a UE de retaliar contra os EUA. A UE não pode ter, simultaneamente, um conflito militar na sua fronteira leste, e uma guerra comercial na fronteira ocidental. Além disso, quando Trump começa a mudar a sua posição em relação à guerra na Ucrânia, os europeus não querem arriscar que uma retaliação comercial leve os EUA a suspenderem de novo o envio de armas para a Ucrânia. Também neste ponto Trump é bastante consistente: percebe muito bem e rapidamente as fraquezas dos seus interlocutores.