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Moçambique

Idai

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Sobretudo por causa da parceria com a China, e como outros países africanos, a floresta de Moçambique tem sido dizimada a um ritmo avassalador. Nisto o governo local tem seriíssimas responsabilidades.

A relação equilibrada de indivíduos e sociedades com o seu meio envolvente, incluindo a natureza, apenas será sustentável no tempo em tradições culturais de autorresponsabilização. Esta orientação moral deve ser transversal a indivíduos e coletivos, ricos e pobres, crianças e adultos, uma vez que o valor dos princípios morais depende da sua universalidade.

Encarar com humanismo a crueldade de ciclone Idai – cujos ventos, chuvas e inundações provocaram, no passado mês de março, uma tragédia que atingiu o centro de Moçambique e as regiões contíguas do Zimbabué e do Malawi deixando um lastro de mais de meio milhar de vítimas mortais – remete-nos para desafios morais.

Hoje, o superlativo é apoiar as populações afetadas no imediato e a prazo. Mas são as preocupações a prazo que despertam o lado incómodo do problema moral. Ao mesmo tempo que se trata das vítimas, é necessário começar a apurar responsabilidades humanas e ser consequente nessa atitude.

Ainda que nestas situações possa ser legítima a opção cómoda da externalização de responsabilidades, como culpar os Estados Unidos da América, sobretudo com Donald Trump, ou a China pelas alterações climáticas tendo em conta os níveis elevados de poluição provocados pelas atividades industriais desses países, ficará para sempre por esclarecer a dimensão do impacto dos fatores externos a África. Quaisquer que sejam, eles jamais ilibam de responsabilidades os governos e demais responsáveis dos países afetados. Portanto, moral sem autorresponsabilização pode ser estéril, isso se a responsabilidade não for virada para o interior de cada sujeito individual ou coletivo.

Se as consequências de um ciclone anunciado foram devastadoras é porque as populações não estavam devidamente protegidas. Fugir a essa questão significa, no futuro, deixar aquelas populações, ou outras próximas ou equiparáveis noutros pontos do mundo, tão vulneráveis como no momento em que o ciclone Idai desvendou a sua desproteção, até porque sabemos ser provável que fenómenos semelhantes se repitam. Nesse sentido, a desresponsabilização é moralmente condenável.

É de lembrar que o controlo da variável demográfica é da responsabilidade direta de cada povo, em especial dos respetivos governantes. A África vive em explosão demográfica e acentuada concentração urbana há bem mais de duas décadas e pouco ou nada se fez para contrariar tais tendências. Além das condições de habitabilidade precárias, dessa conjugação de fatores há muito que se sabe que deriva uma pressão insustentável sobre o meio ambiente. Esta traduz-se na desmatação acentuada (as pessoas necessitam de madeira para construírem e de lenha para cozinhar), no rápido esgotamento dos recursos hídricos em certas zonas, na contaminação dos solos por graves insuficiências de redes de esgotos ou de sistemas de tratamento do lixo, ou na poluição atmosférica.

Tal ecologia propicia o alastramento de epidemias (como o efeito secundário da cólera após o Idai que prolonga os efeitos mortíferos do ciclone) ou do crime. Desse modo, a pobreza é problemática por se transformar em endémica, isto é, as gerações passam e os indivíduos não conseguem sair da miséria.

Quem conhece a cidade da Beira, no centro de Moçambique, dificilmente ficará indiferente à quantidade de madeira exportada a partir do porto local. Sobretudo por causa da parceria com a China, e como outros países africanos, a floresta de Moçambique tem sido dizimada a um ritmo avassalador que não pode ser dissociável das alterações climáticas e demais desequilíbrios ambientais na região. Nisto os governantes locais têm seriíssimas responsabilidades e os custos das suas decisões implicam consequências pesadas a longo prazo para as populações que se começam a manifestar.

Existe, portanto, uma quebra dramática da autorresponsabilidade individual, institucional e coletiva dos próprios africanos. Perante isso, é fundamental associar o dever moral de auxiliar os países afetados num momento difícil ao dever não menos moral de tornar os governantes da região plenamente responsáveis pelo destino dos respetivos povos.

Não existe outra forma de evitar o sofrimento humano.

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