O tema do Médio Oriente é, desde há muitos anos, um assunto fracturante na opinião pública e publicada. Nestes assuntos, é sempre importante enquadrá-los com uma breve resenha histórica que, neste caso, apenas me vou cingir ás últimas quatro décadas.

De facto, este ano, completaram-se quarenta anos da assinatura dos denominados Acordos de Paz de Camp David. Negociados, em 17 de Setembro de 1978, na casa presidencial dos EUA (Camp David) pelo Presidente Jimmy Carter e assinados na Casa Branca, posteriormente, pelo Presidente Anwar Sadat, do Egipto, e pelo primeiro ministro Menachem Rabin, de Israel, formaram um pacto pelo qual os Países se comprometiam a negociar de boa fé e a assinar um tratado de paz, o que aconteceu. O Tratado de Paz Israelo-Egípcio foi, de facto, posteriormente celebrado, em 26 de Março de 1979, em Washington.

Os dois Acordos de Paz – A Framework for Peace in the Middle East e A Framework for the Conclusion of a Peace Treaty between Egypt and Israel – continham disposições sobre a desocupação da Península do Sinai por Israel, a resolução da questão palestiniana, o estabelecimento de laços diplomáticos, económicos e culturais, a eliminação das barreiras ao comércio e à liberdade de circulação, entre muitos outros assuntos.

Israel completou a sua retirada do Sinai em 1982, de acordo com os termos do tratado tendo, também, resultado no primeiro reconhecimento do Estado de Israel por parte de um País Árabe. O que é um facto é que, passados 40 anos, a paz entre os dois países manteve-se e sobreveio após trinta anos de hostilidades, contados desde a fundação do Estado de Israel. O Presidente Sadat e o primeiro-ministro Begin receberam, conjuntamente, o Prémio Nobel da Paz por este acordo.

Embora os outros estados árabes se tenham afastado do Egipto após a assinatura do tratado, com o tempo, todos restabeleceram as suas relações com o mesmo e reabriram as suas embaixadas no Cairo. A sede da Liga Árabe, que havia sido transferida para Tunis, foi restabelecida no Cairo, no início da década de 80. São talvez as mais bem-sucedidas conversas do processo de paz. O acordo durou, apesar de tensões posteriores entre Israel e Egipto e de Sadat ter sido assassinado.

Posteriormente, sucedeu-se a Conferência de Madrid, 1991. Entre outos temas, constava a abstenção de actos de beligerância; garantir que nenhuma ameaça de violência para com o outro seria originada dentro do seu território; prevenir o terrorismo e agir em conjunto para alcançar a segurança e a cooperação no Médio Oriente. A fronteira internacional estabelecida no tratado, substituiu as linhas de cessar-fogo de 1949 e é delimitada com referência à fronteira do Mandato Britânico (1922-1948).

O tratado de paz entre Jordânia e Israel, assinado na fronteira de Akaba-Eilat em Outubro de 1994 (fez agora 25 anos) foi precedido por uma reunião entre o Rei Hussein e o primeiro-ministro Yitzhak Rabin em Washington, três meses antes, quando os líderes proclamaram o fim do estado de guerra entre os dois países. Yitzhak Rabin é assinado em Novembro de 1995.

Embora a instabilidade tenha continuado a marcar a região, nomeadamente a Palestina, mesmo avanços parciais e incompletos como a paz com a Jordânia e o Acordo de Paz de Oslo, não teriam sido possíveis sem o precedente de Camp David. Após o surto de terrorismo palestiniano, em Setembro de 2000, as relações diminuíram consideravelmente e o Egipto retirou o seu embaixador, que retornou no início de 2005. No entanto, o comércio e a cooperação continuaram, e a comissão militar conjunta reúne-se regularmente. Após a retirada de Israel da Faixa de Gaza, com a contribuição do Egipto, as relações melhoraram.

Embora estivessem em guerra há 46 anos, Israel e Jordânia mantiveram contactos secretos e concluíram acordos mutuamente benéficos ao longo desse período. Com a ratificação do Tratado de Paz, foram estabelecidas relações diplomáticas totais e, desde então, a relação entre Israel e Jordânia avança de forma constante.

Feita a resenha possível, entremos na actualidade. O que se passa, e se mantém, desde há muitos anos na análise desta temática? Infelizmente, é aquele “preconceitozinho” de análise que os termos “esquerda” e “direita” passou a determinar… para a posterioridade.

Sabemos que se tratou, apenas, de uma distribuição de lugares (como muito recentemente num certo Parlamento, que conhecemos bem), em resultado da Revolução Francesa quando os membros da Assembleia Nacional, constituída na altura, se teve que dividir em partidários do Rei/Imperador à direita do Presidente e simpatizantes da Revolução à sua esquerda.

Existe uma opinião generalizada na dita Europa e, obviamente em Portugal, que Israel representa a Direita e que as nações Árabes, na sua maioria, são os “coitadinhos” que a Esquerda Beluga gosta muito de defender. Tal não se prende apenas com a questão palestiniana (nação com déficit democrático, como sabemos), mas com preconceitos ideológicos, bem definidos.

Ora, tendo nascido daquela forma, eternizou-se esta dictomia, sendo aceites, em princípio, as actuais definições, do que é direita e do que é esquerda. No entanto, a evolução dos tempos veio a revelar que tais definições – que não cabem neste texto – não se adequam aos tempos actuais na análise, nomeadamente, de assuntos internacionais. Afinal, Putin é de Esquerda ou de Direita!?

Mas voltando ao Médio Oriente – ou talvez sim – quem são os “players” de Esquerda e de Direita na região? O denominado Médio Oriente é geralmente aceite como sendo constituído – apesar de algumas nuances – por dezassete países. A saber: Turquia, Síria, Iraque, Irão, Jordânia, Arábia Saudita, Egipto, Líbano, Emiratos Árabes Unidos, Qatar, Palestina, Koweit, Bahrein, Iémen, Omã, Chipre e Israel.

Olhando para estes Países, é surpreendente constatar como existe a firme convicção que Israel é a “Direita” e os denominados “Árabes” são defendidos, pela Esquerda Beluga (proveniência do Mar Cáspio quer da Rússia, quer do… Irão), como sendo os oprimidos. Como sempre acontece… nem uma coisa, nem outra.

Referidos dois dos três componentes do título do presente texto – Israel e Esquerda Beluga – falta… o compasso! A distância entre o centro geográfico da Grécia e de Israel é cerca de 1480 kms em linha recta, sendo que por estrada é, aproximadamente, de 2800 Kms.  Vamo-nos focar na distância em linha recta. Se utilizarmos um compasso e fizermos uma circunferência com um raio de 1480 kms, não encontraremos nenhum país democrático, sem ser um destes dois – Grécia e Israel. Dado que a Grécia não integra o Médio Oriente (o Chipre referido, é apenas a parte “Turca”) chegamos à conclusão, difícil de aceitar para muitos, de que Israel – apesar de muitos defeitos que lhe possam atribuir – é o único país do Médio Oriente, onde a Democracia existe!

Aliás, basta ver a actualidade da situação política em Israel com o resultado das Eleições Democráticas a determinar, quase, um empate entre as duas maiores forças políticas. O líder do Likud (Netanyahu) anunciou ao Presidente Israelita que não consegue formar Governo e que dá a vez ao rival político, Benny Gantz, líder da coligação Azul e Branca. “É isto que o povo quer”, afirmou.

O primeiro-ministro israelita em funções, Benjamin Netanyahu, anunciou formalmente ao Presidente de Israel, Reuven Rivlin, que abdica de tentar formar Governo, depois de um mês de negociações infrutíferas para conseguir uma maioria parlamentar. Caberá agora a Gantz tentar formar Governo, ao que tudo indica sem o Likud de Netanyahu. Ou então, como chegou a ser referido antes das eleições, Gantz poderá impor como condição para se coligar com o Likud que Netanyahu, atualmente a ser investigado por três casos de corrupção, seja afastado. Caso contrário, só terá hipótese se conseguir alinhavar os interesses do Yisrael Beytenu (direita secularista) com os dos partidos árabes e de esquerda… Este relato, cheio de actualidade, é bem elucidativo!

Vejamos. De facto, é difícil entender que Israel, que é único país naquela zona que tem um regime democrático e que até teve, durante anos, governos liderados por Golda Meir, Yitzhak Rabin e Shimon Perez (todos membros do Partido Trabalhista, integrante da Internacional Socialista) seja considerado como “a direita” na zona! Ora, a esquerda será o Irão, a Arábia Saudita, a Turquia e o Qatar?

Uma vez questionei um amigo português, assumidamente judeu e socialista militante, com esta questão: como poderia ele ter a opinião negativa – que a tinha – acerca da generalidade dos árabes e depois se podia “reconhecer” na postura que a esquerda coloca sempre que debate os assuntos de Médio Oriente, em que Israel surge sempre como o “mau da fita”? Disse-me que nunca tinha “visto” o assunto dessa maneira!

Mesmo nas questões de igualdade entre homens e mulheres, é conhecida a total abertura de Israel nesse domínio, com a participação de mulheres, há muitos anos, em todos os domínios da sociedade, nomeadamente na actividade política.

Israel não é, obviamente, uma nação sem defeitos, mas sabemos que , também nos direitos das mulheres, no que aos países árabes da região diz respeito… estamos conversados! Dir-me-ão que é uma questão cultural e ancestral, nem o discuto, mas é para mim difícil assistir à defesa pela Esquerda Beluga (quer mulheres, quer homens) de regimes com as restrições que conhecemos.

O texto já vai longo mas merece, a meu ver, outro enquadramento histórico: a importância para a denominada Civilização Ocidental da génese de um dos seus pilares: a matriz religiosa. Convém apenas realçar a importância da Mãe (há sempre uma Mãe…) do Imperador Romano Constantino nesta história.

Helena (ou quiçá, Santa Helena…) que com grande probabilidade terá nascido Cristã e demonstrou grande piedade ao longo da sua vida, terá influenciado o seu filho. Como o mundo dá muitas voltas, aquele Imperador, através do Édito de Milão (Ano de 313) estabeleceu a tolerância ao Cristianismo, sem colocá-lo acima de outras religiões. De igual modo, note-se que nessa altura, o Domingo foi escolhido como dia de repouso, em função da tradição sabática judaico-cristã. O nome original em latim – Dominicus – significa “dia do Senhor”.

Helena, quando realizou uma peregrinação à Terra Santa, localizou em Jerusalém uma cruz que foi tida como a Vera Cruz e ordenou a construção da Igreja do Santo Sepulcro, substituindo o templo a Afrodite, que havia sido instalado no local – tido como o do sepultamento de Cristo – pelo Imperador Adriano.

Em 27 de Fevereiro de 380, através do Édito de Tessalónica, o Imperador Teodósio I instituiu o Cristianismo niceno, como religião oficial em todo o Império.

De realçar que a região da Palestina, onde viviam diversos povos, entre eles os Judeus, passou a fazer parte dos domínios romanos em 63 a.C. e influenciou directamente a emergência de uma nova religião. O Cristianismo foi uma religião que “nasceu” no Império Romano, a partir da tradição judaica que acreditava na chegada de um Messias à Terra, que seria responsável por pacificar a humanidade. Posteriormente, alastrou a todo o Ocidente.

Como sabemos, o Centro da Igreja Católica Apostólica Romana, o Vaticano, fica localizado em Itália. Confusos? Império Romano / Árabes / Judeus / Cristãos.

Face ao exposto, deveria ser para todos evidente que o “assunto” do Médio Oriente envolve, como nenhum outro, muitos aspectos históricos e religiosos pelo que não pode ser analisado, como vimos, de uma forma clássica “Direita/Esquerda” , nem numa versão “ Judeus/ Árabes”, mas pode ser evitado referir que as liberdades, de toda a ordem, existem em toda a zona definida pelo tal… compasso!

Isso não é verdade quer se goste, quer não.

Ah! A propósito… Jesus Cristo era Judeu!