Nos corredores de Davos, esta semana, voltou a ouvir-se uma verdade desconfortável sobre o estado do sistema internacional. Durante décadas, a Europa operou sob uma ilusão confortável. A crença de que a integração económica e o comércio levariam, por si só, à pacificação entre povos, à democratização dos regimes autoritários, ao estabelecimento de um sistema internacional baseado no Direito e em regras. Foi esta convicção que levou à integração da energia russa no mercado europeu, apostando que a interdependência moderaria Putin. Foi esta mesma crença que saudou a entrada da China na OMC em 2001, imaginando que o regime se integraria no sistema internacional e cooperaria com o Ocidente. Os líderes europeus operavam sempre com a mesma premissa: comércio leva a paz, integração leva a convergência.
O problema é que isto nunca parece ter sido verdadeiramente real. Não porque a teoria em si fosse errada, mas porque era demasiado ingénua. O sistema internacional nunca foi apenas baseado em regras. Funcionou sempre através da força, do domínio de potências hegemónicas que impunham os seus interesses. O facto de a Europa nunca ter sido confrontada com isto não significava que o problema não existisse. Enquanto os interesses americanos estavam alinhados com os europeus, a ilusão era viável. Os EUA ainda vestiam as suas intervenções com linguagem de direito internacional e propósitos supostamente louváveis — chegaram até a mentir às Nações Unidas para justificar invasões. Mas isso não quer dizer que o sistema funcionasse como se dizia. Apenas quer dizer que a hipocrisia era confortável. Que o poder estava do nosso lado.
Agora Trump veio quebrar toda esta ilusão. Não substituiu a ordem antiga por uma nova. Apenas relembrou as pessoas de como ela realmente funcionava. E ao fazê-lo, mostrou algo profundamente incómodo: o comércio e as interdependências económicas que tanto se dizia trazerem a paz tornaram-se, na verdade, o principal veículo de dominação e de projeção de poder. A integração económica nunca foi neutra. Nunca foi imune a desígnios políticos. E numa era onde a guerra armada se tornou inviável e politicamente impopular, a forma mais direta que as grandes potências têm de avançar os seus interesses é através da instrumentalização de interdependências.
É por isto que se torna cada vez mais relevante o conceito de weaponized interdependence. Quando o mundo se globalizou no segundo pós-guerra e, sobretudo, com o fim da Guerra Fria, a economia internacional estruturou-se em torno de redes altamente centralizadas. As plataformas tecnológicas americanas (Internet, e-commerce, redes sociais) passaram a intermediar a comunicação global. Os sistemas financeiros concentraram-se no dólar, no SWIFT, em bancos americanos e, em menor medida, europeus. Estes sistemas transformaram-se em infraestruturas com pontos de estrangulamento controlados por poucos atores, através dos quais fluem capitais, bens e informação essenciais ao funcionamento da economia global. Mas ninguém tinha preocupações geopolíticas enquanto tudo isto se construía. Ninguém se preocupava com a vulnerabilidade de ser dependente de infraestruturas económicas alheias, porque quem controlava esses nós críticos era amigo. O perigo de esta interdependência ser instrumentalizada nunca foi verdadeiramente tido em conta porque quem tinha o poder para o fazer, pensava-se, nunca o faria.
Mas este novo mundo interdependente e globalizado tornou o conflito armado menos atrativo, sim, mas tornou viável a guerra através de outros meios. O controlo sobre estes “nós” — os sistemas de pagamento, as tecnologias críticas, o acesso a mercados — converteu-se na moeda política da era contemporânea. E quem os controla pode impor coerção sem disparar um tiro.
Foi esta a importância de Mark Carney em Davos. Foi o primeiro líder ocidental a reconhecer, diretamente e sem subterfúgios, que vivemos numa era onde as interdependências económicas são instrumentalizadas como armas. E que isto representa um perigo particular para potências médias como a Europa. Porque se a Europa não tem capacidade própria para controlar estes nós, fica à mercê de quem tem.
A ironia é que a Europa tem capacidades. O SWIFT fica em Bruxelas. Empresas europeias como a ASML (única produtora mundial de litografia ultravioleta extrema) controlam pontos críticos em tecnologia. O seu mercado é o segundo maior do mundo. Teoricamente, isto dever-nos-ia conferir poder geoeconómico real. No entanto há uma recusa sistemática em sequer reconhecer esse poder, quanto mais exercê-lo. Porque a Europa continua presa à ilusão de que pode resolver tudo com as melhores declarações sobre direito internacional, sobre multilateralismo, sobre princípios. De que se conseguir articular corretamente a linguagem certa, todos voltarão a acreditar na ficção. Que o sistema voltará a funcionar com base em regras.
Mas as regras internacionais só existem enquanto houver poder suficiente para as sustentar. Esse poder vem de capacidade real e de alianças suficientemente fortes para que contornar as regras tenha consequências. A Europa tem algumas dessas capacidades, mas recusa-se sistematicamente a usá-las de forma coordenada porque continua presa à ilusão de que a moralidade, por si só, tem peso geopolítico.
Parte dessa recusa vem de uma confusão conceptual entre soberania e isolamento, entre abertura e submissão. Como se fechar fronteiras económicas, rejeitar integração ou fragmentar decisões estratégicas fosse sinónimo de independência. No mundo atual, é exatamente o contrário. Países europeus isolados não têm mais do que a liberdade formal de aceitar decisões tomadas noutras capitais. Hoje, a soberania europeia constrói-se através de integração profunda em áreas críticas como a defesa, o que passa por criar uma força militar europeia que possa operar em paralelo com os exércitos nacionais, enquanto os países integram as suas cadeias de produção de equipamento à escala continental em vez de manter cada um a produzir e a comprar o seu próprio armamento de forma fragmentada. Só essa combinação de capacidade militar partilhada e coordenação industrial pode substituir ou mitigar os efeitos de uma retirada americana do continente. É a integração europeia, não o nacionalismo fragmentado, que permite à Europa preservar margem de manobra.
Margem de manobra essa que depende também de deixar de estar presa à escolha entre Washington e Pequim. Substituir a dependência americana pela dependência chinesa não resolve nada. O que a Europa precisa é de multiplicar ligações estratégicas com outras potências médias como Índia e com blocos como a MERCOSUL e a ASEAN, de forma a construir uma rede onde nenhum ator isolado consiga usar o controlo sobre uma única infraestrutura ou mercado para a coagir. É através dessa diversificação de parcerias, combinada com integração interna profunda, que a Europa pode converter as suas capacidades em poder real.
Continuar a apostar na diplomacia performativa enquanto o resto do mundo age é aceitar um papel de figurante na nossa própria história. Carney no seu discurso referiu que quem não está à mesa está no menu. De facto, a escolha é essa: a Europa ou constrói poder suficiente para impor as suas regras, ou aceita viver segundo as regras que outros imponham. As capacidades existem. O que parece faltar é a vontade de as usar enquanto ainda contam.