Alexis Tocqueville escreveu no seu “Da Democracia na América”, que os vícios da democracia se veem no imediato, mas as suas vantagens só a prazo se percebem.

Com a crise pandémica que hoje vivemos, podemos facilmente observar a relação destes dois binómios nas nossas democracias e facilmente criticamos as suas fragilidades, que por vezes nos levam a considerar caminhos mais imediatos e autoritários como solução para todos os nossos problemas. Mas, friamente, coloco esta questão: Valerá a pena sacrificar a nossa democracia em troca de uma segurança que poderá ser ilusória?

As falhas da democracia também inspiram e motivam as suas próprias vantagens. A influência do cidadão sobre os governantes não pode ser descurada, daí ser fundamental a qualquer sociedade liberal ter cidadãos activos na vida pública, um pouco ao jeito da cultura republicana.

Acredito que nesta fase específica, com a subida do número de casos diários de Convid-19, também natural pela actividade social e económica de um país, a nossa conduta será de fulcral importância.

Com a improvável possibilidade de um novo confinamento, temos de fazer uma introspecção sobre o nosso papel e responsabilidade como cidadãos no combate à pandemia. Não podemos aceitar e conformarmo-nos, à espera que toda e qualquer solução dependa exclusivamente do poder político. Um pouco na lógica do self-government, precisamos de gerir a nossa vida em comunidade, pois sem ela não conseguiremos sobreviver.

A atomização individual que os sistemas liberais nos trouxeram, como o controverso Deneen descreveu na sua obra “Porque está a falhar o Liberalismo?”, deixa o indivíduo despido perante o Estado, não tendo aquele qualquer hipótese senão tornar-se mais dependente deste. Como consequência, cria uma sociedade cada vez mais egoísta e individualizada. Assim, o indivíduo vive confortável na sua própria bolha, sem se aperceber que está a entregar a sua autonomia e os seus direitos a quem os quiser reclamar.

A situação da Covid-19 veio, claramente, mostrar as fragilidades desta realidade, em que vidas humanas estão em jogo, acentuando, assim, mais do que nunca, a necessidade de insistir na responsabilização das acções individuais, tendo elas consequências na nossa comunidade. Nitidamente, como sociedade, estamos a ter uma certa dificuldade em alterar o “chip” para nos adaptarmos às contingências actuais.

Talvez por isso, os Estados tenham necessitado de dar uma resposta deveras musculada, sob a forma de restrições, para conseguir gerir a situação. Mais do que nunca, necessitamos de uma cultura cívica arrojada, para não dependermos exclusivamente das decisões do poder político e sermos, nós próprios cidadãos, a fazer de contrapeso e com sucesso adaptarmo-nos à realidade actual, evitando que o Estado adquira poderes que, na maior parte das vezes, são desproporcionados.

Assim, gostaria de realçar alguns aspectos: não vale de nada as escolas, universidades, locais de trabalho e restantes espaços sociais tomarem todas as medidas de segurança, se nos ambientes exteriores inerentes aos mesmos não tivermos individualmente os mesmos cuidados.

Ainda que fundamental, todos os dias escrutinamos e analisamos a resposta dos nossos governantes no combate à pandemia. Mas, sem sombra de dúvidas, será também de extrema importância o nosso papel como cidadãos para combater a mesma.

Não quero com este texto desvalorizar a importância do Estado, mas sim valorizar a importância do cidadão. Seria de importância vital termos menos Estado e mais cidadania.

Que a vantagem das Democracia se observe e acentue no futuro, com a perpetuação das nossas liberdades e faculdades. Como diz o velho ditado: não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.

Those who would give up essential liberty, to purchase a little temporary safety, deserve neither liberty nor safety. (Benjamin Franklin)