Rádio Observador

Exames Nacionais

Mensagem sem Pessoa

Autor
  • Beatriz Gomes Artilheiro
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Sim, o exame teve Pessoa, mais Saramago e Ricardo Reis. Mas não inclui Eça de Queiroz. Crónica de uma aluna enquanto estudava para o exame de hoje de Português do 12º ano. "Valete, fratres".

A pouco menos de três dias do exame nacional de Português, a pressão agudiza-se dia após dia e começo a ser Eça de Queiroz ao ver as lágrimas do desespero cair e pingar sobre a tinta indelével do meus apontamentos. Sou Queiroz ao pensar “Vou meter água neste exame, de certeza”, anunciando, temerosamente, o título Os Maias – Episódios de uma vida de Exame, onde a geração de 2000 crítica ferozmente a linha postiça da sociedade exposta, falsamente, nas redes sociais. Ao fazer isto, sou já vítima de uma deambulação pela malha urbana caracterizada pela (i)mediatização dos costumes, onde procedo à introspecção – à imagem de Cesário (piada pretendida) – e, sem me aperceber, já criei um universo de pensamentos e tipos sociais a partir de um instastory de alguém que nem conheço. Ridículo. Não fosse o Campos salvar-me desta fase decadentista, estou eufórica, subitamente, oiço a minha mãe chamar-me para o almoço e só penso no barulho dos talheres a raspar nos pratos, com a ânsia de terminar o mais rápido possível, para que cada um de nós possa voltar às suas vidas – sim, afinal de contas, pertencemos todos à sociedade fast tudo e só temos de estar orgulhosos, porque o belo é o feroz, as máquinas, a industrialização!!! -, mas isto deixa-me exausta e dou por mim no autocarro como a única consciente, analisando e criticando ativamente a inconsciência comum de todos aqueles que ali viajam, – sou agora Soares – até ligarem a telefonia… agora todos despertam como ovelhas no meu pensamento, onde as guardo todas até formarem um rebanho e já só me interessa a Natureza e a nossa comunhão porque qualquer outra ideia apenas me traz uma profunda dor de pensar e mais queria ser inconsciente como o pássaro que vejo voar da janela do autocarro – ainda sou Soares – do que assim, infeliz e descontente com o meu Presente. No meio disto tudo, sou já apática e ignoro as minhas perturbações na esperança de que o Carpe Diem se cumpra na plenitude e possa, assim, ter a felicidade relativa que procurava.

Ao aperceber-me da natureza fragmentária da obra, concluo que afinal é «Noite» e simplesmente acabei de realizar inúmeras viagens literárias onde o condutor foi o taxista do Ricardo Reis de Saramago. Sim, porque se a minha escrita é agora incerta, culpem o vencedor do Prémio Nobel, já que agora escrevo de acordo com as pausas breves de respiração – vírgulas – e as pausas longas – pontos finais – intercalado por vocativos no discurso indireto livre, Toda a gente sabe que o hóspede do 201, o doutor Reis, Lídia, foi intimado pela pvde. E, ora, dou por mim a pensar sintaticamente nas minhas frases: Mãe vírgula podes passar tracinho me a cesta do pão que é complemento direto nesta frase e eu que sou complemento indireto comprovado pelo deítico pessoal “me” e tu vocativo “Mãe” entre vír – Sim! – diz a minha mãe ao ver tracinho me entrar numa espiral de criação poética absurdamente dolorosa mas necessária e já sem me questionar, continuo assim, «’screvendo à beira-mágoa», rezando a “Prece”, espalhando a Mensagem de que «tudo vale a pena/Se a alma não é pequena» e acreditando que tirarei 20 no Exame «se a tanto me ajudar o engenho e arte» sem reflexão e lamentações do poeta, porque é assim que vamos conquistar o Quinto Império.

E é a Hora, Irmãos, assim me despeço:

Valete, fratres.

Sábado, 15 de junho 2019

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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