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Futebol

Milhões para aquisições, tostões para evitar lesões

Autor
  • João R. Vaz
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Na Premier League inglesa é curioso perceber-se que a classificação na época 2017/18 coincide na perfeição com a classificação no campeonato de “número de lesões” para os primeiros três classificados.

A variável que melhor explica o rendimento no futebol é o orçamento. Dinheiro para contratar jogadores e pagar elevados ordenados apresentam uma relação direta com resultados desportivos. Por exemplo, em 2017/18 os 317.5 M€ investidos pelo Manchester City em aquisições fizeram do clube o maior investidor em jogadores da Premier League, seguido de Chelsea (260.6 M€) e Manchester United (198.4 M€). Contudo, este rendimento que é sobretudo coletivo não é, como tudo na vida, explicado por uma única variável.

A capacidade do treinador capitalizar talento individual em talento coletivo está muito relacionado com a disponibilidade física dos seus jogadores. Este desafio ganha especial dificuldade com o sucessivo aumento de densidade competitiva do futebol europeu. Se na década de 80 um jogador de futebol fazia 40 jogos numa temporada, atualmente este número situa-se nos 60, com impacto positivo na qualidade do treino e negativo no tempo de descanso dos jogadores. Neste contexto, nunca foi tão grande o risco de lesão, bem como as consequências nefastas das mesmas. É também neste sentido que a Benfica SAD e a Sporting SAD criaram o Benfica Lab e a Unidade de Performance Sporting, respetivamente. Se antigamente a prevenção de lesões era visto como um tema de pouca importância, atualmente tem um papel determinante para o sucesso individual e coletivo.

Destaca-se assim cada vez mais o papel preventivo e não reativo sobre a saúde clínica dos jogadores, isto é, o enfoque está cada vez mais no desenvolvimento de estratégias que visem a diminuição do risco de lesão em todos os atletas, e não no tratamento de lesões somente dos atletas afetados. Estratégias que envolvam a otimização das qualidades físicas dos atletas, o controlo da carga de treino, da fadiga, da qualidade de sono e nutrição, etc., devem ser implementadas a todo o plantel. Estratégias mais específicas e individualizadas podem e devem tomar lugar para alguns atletas, de acordo com uma avaliação individualizada. Um passo fundamental consiste numa correta, objetiva e cuidada avaliação nos diferentes domínios já inumerados, em vários momentos da época desportiva. A área de saúde e performance é da maior importância em qualquer clube de futebol, exigindo equipas multidisciplinares (médicos, fisioterapeutas, fisiologistas, preparadores físicos, equipa técnica, nutricionistas, etc.) em que a comunicação e interpretação da informação recolhida deve ser partilhada e discutida.

Contudo, a prevenção de lesões é uma área pouco sexy para quem toma decisões. Sobretudo em Portugal, o investimento no desenvolvimento formal de estruturas que procurem aliar a otimização do rendimento à prevenção de lesão é ainda reduzido. A relação custo-benefício do investimento numa estrutura robusta para a otimização do rendimento individual é difícil de estabelecer a curto-prazo, e explicar a quem gere porque o retorno não é diretamente observável ou mensurável. Mas se a visão do líder for ampla e holística, então rapidamente se percebe a sua importância para o desempenho financeiro do clube. O negócio do futebol (em Portugal) incide não sobre o espetáculo, mas sobre as transferências de jogadores: um atleta que sofra uma lesão grave sofre uma desvalorização do seu valor de mercado na ordem dos milhões.

Mais lesões obrigam à contratação e manutenção de planteis mais elevados para o mesmo rendimento coletivo e vice-versa, isto é, mais lesões originam planteis mais curtos e, por isso, investimento em jogadores cujo preço e qualidade são superiores, mantendo um nível de competitividade elevado.

Voltando ao exemplo 11 O Manchester City foi a equipa inglesa com menor número de lesões, a que se seguiram o Tottenham e Manchester United. E em 2016/17, o Chelsea é campeão e, também, a equipa que menos lesões apresentou face aos seus adversários diretos. Mais curioso é perceber-se que o número total de dias ausente por lesão (somatório dos dias ausente por lesão de todos os atletas lesionados) foi claramente menor que os restantes adversários diretos, onde se seguiram Tottenham e Manchester City que alcançaram, respetivamente, os 2º e 3º lugares na Premier League.

Na época desportiva 2017/18 os clubes da Premier League totalizaram gastos em salários de atletas lesionados na ordem dos 241 M€, colocando-se a questão qual o preço da ausência de investimento na prevenção de lesões?

Professor Auxiliar e Coordenador do Sports Medicine Lab da Universidade Europeia

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