Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Não obstante as medidas repressivas tomadas pelas autoridades da Rússia, o movimento anti-bélico no país desperta. São ainda muito poucos, mas são uma prova de que vai aumentando a contestação à política do Presidente russo em relação à Ucrânia.

Segundo dados da polícia, a Marcha da Paz hoje realizada na capital russa teria juntado cerca de 5 mil manifestantes, mas os organizadores falam em mais de 50 mil pessoas. A organização independente “Contador Limpo” colocou membros seus juntos dos torniquetes instalados pela polícia que contaram a presença de mais de 26 mil manifestantes.

É verdade que, para uma cidade com mais de 10 milhões de habitantes, qualquer um dos números citados pode parecer insignificante, mas o facto é que o poder tem medo de qualquer minoria, pois colocou no local da marcha mais de 3000 polícias.

As reivindicações dos manifestantes foram: retirada das tropas russas do território da Ucrânia; fim do apoio material e militar aos separatistas; fim da histeria nos canais de televisão públicos; fim da perseguição daqueles que condenam a agressão contra a Ucrânia e a anexação da Crimeia.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

É de recordar que, segundo uma lei recentemente aprovada, a exigência da devolução da Crimeia à Ucrânia é considerada um apelo ao separatismo e, por isso, pode ser condenada com pena de prisão.

Piotr Tzarkov, um  dos organizadores da marcha, revelou que a polícia retirou aos manifestantes uma faixa com a palavra de ordem: “A guerra contra a Ucrânia é uma vergonha e um crime da Rússia”, alegando que não há qualquer tipo de guerra entre os dois países. Porém, viam-se numerosas bandeiras ucranianas e russas.

Nikolai Valuev, antigo pugilista de pesos pesados e actual deputado do Parlamento russo pela “Rússia Unida”, principal força de apoio a Putin, escreveu no Twitter: “Olhem para essa corja de orcus [personagens negativas no Senhor dos Anéis] com bandeiras da NATO, do ‘Sector de Direita’ no centro de Moscovo. A Rússia precisa de toda essa peste? E que prepara ela?… Recordem os seus rostos. Pode servir para alguma coisa”.

Nestas palavras está bem vincado o medo do Kremlin face às chamadas “revoluções coloridas”. O pior pesadelo para Putin é imaginar no seu país um levantamento semelhante aos que ocorreram na Ucrânia em 2004 e 2013-2014. É verdade que a oposição russa é muito fraca e está muito dividida, mas o Kremlin tem medo e reprime qualquer tipo de oposição democrática.

E quando alguns analistas consideram que é melhor manter Putin no Kremlin porque a alternativa são os nacionalistas e fascistas russos, é lugar para perguntar: Putin será eterno? E porque razão dirige ele todo o seu aparelho repressivo contra a oposição pró-europeia? Talvez porque o actual Presidente russo não tolera alternativas.