Concluí, há dias, a leitura de Mussolini – O Filho do Século, de António Scurati. Romance documental e um belo maço (850 páginas), é, simultaneamente, um relato dos acontecimentos em Itália nos anos 1919-1924 e uma biografia de Mussolini, desde os seus tempos de militância no Partido Socialista (no qual militava sobretudo por via da direcção do jornal Avanti!, e de que foi expulso pelo seu apoio à intervenção de Itália na Primeira Guerra Mundial) até à entronização como Duce e ao estabelecimento do Partido Nacional Fascista no poder.

Capitalizando o descontentamento de um povo desirmanado, em busca de melhores condições de vida, após o desfecho da guerra e perante as tentativas sucessivamente goradas de uma revolução socialista, o fascismo germinou na Itália setentrional e central (Milão, Bolonha, Ferrara, Perugia, etc.), assente na repressão violenta dos movimentos socialistas e operários por parte dos fasci di combattimento, tendo culminado na famosa marcha sobre Roma dos “camisas negras”, cujo sucesso, a julgar pelo relato de Scurati, se deveu mais a questões de percepção, inacção e de sentimento de inevitabilidade do que propriamente à força dos números e à capacidade bélica das legiões. Após uma primeira fase, em que os partidos do establishment se viram obrigados a incluir os fascistas no arco parlamentar, o poder foi tomado pela ameaça de insurreição, tendo o rei entregado os comandos do país a Mussolini e ao Partido Nacional Fascista.

É inevitável, ao longo da leitura, ir estabelecendo analogias com a actual ascensão da extrema-direita em Portugal. Já assistimos à inclusão desta direita num governo insular assente em negociações políticas; é também fácil (talvez demasiado) encontrar semelhanças nos discursos de índole nacionalista, racista, xenófoba e anti-sistema, e de aproveitamento de pequenas causas para grandes efeitos, musicados por um hino tipo Giovinezza. Por outro lado, e apesar dos movimentos populistas (Bolsonaro, Erdogan, Orbán, Salvini, Trump…), prevalecem na maioria dos países europeus os valores consagrados na Carta das Nações Unidas (1945) e na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), valores a que estamos acostumados e que, pelo seu contributo para a manutenção de uma paz relativamente duradoura e para uma qualidade de vida, em termos relativos, extraordinária, devem ser preservados, senão pelo conforto, por respeito à memória.

Se, por um lado, nos possamos sentir alarmados com a ascensão da extrema-direita e com uma espécie de revivalismo fascista, por outro parece pouco plausível que, no Portugal dos brandos costumes, extremismos apoiados por milícias armadas venham a tomar o poder de assalto e a obliterar a democracia, com a Europa a ver e a deixar, apesar de já se ter ouvido clamar por um “Exército Popular Português”.

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Devemos ou não alarmar-nos com o fascismo em Portugal? Aqui, parece transponível a tese de Emilio Gentile em Quem é fascista? de que aquilo a que se assistiu recentemente em Itália não foi um regresso do fascismo histórico “nacionalista, estatista, corporativista e socializante”,  e que os “fascistas de hoje” são “pessoas e movimentos que negam ser tal coisa”, conduzindo a uma “ambiguidade e [à] imprecisão do alarme quanto ao risco iminente, para a democracia, de um retorno ao fascismo sob outras vestes […] que realmente não existe.” Para além disso, corre-se o risco de, por “obsessão antifascista” desviarmos a atenção das ameaças reais à democracia, que se tornou aparente e em que os eleitores são chamados às urnas para depois serem remetidos à passividade e governados por “castas, oligarquias e facções que geram desigualdade e corrupção”. É aqui que os esforços se devem concentrar, porque é a degradação da democracia que motiva a adesão aos movimentos populistas e, no nosso caso, à agremiação em torno de um Mussolini à Brás de cidadãos descontentes.

Uma vez que o vencedor das eleições presidenciais está anunciado e que o resultado de outras candidaturas medirá o apoio dos eleitores aos partidos que as apoiam, há alternativa para quem, por um lado, assiste com tristeza ao marasmo democrático e, por outro, não se revê no comunismo, na lenino-marxo-social-democracia, nem num discurso xenófobo e racista? Há, o voto liberal, na expectativa de que a busca não de um Estado mínimo mas menor, em que se procure um equilíbrio saudável entre as funções do Estado e as responsabilidades dos cidadãos, promova, não só mas também, a aproximação da democracia enquanto ideal à efectiva soberania informada dos cidadãos. Eu já votei.