O seguidismo pouco informado da comunicação social, sobretudo a televisão, mais habituada ao estilo futebolístico do que à investigação e à reflexão, impede a compreensão daquilo que se passa no país quanto à pandemia do coronavírus… para não falar do resto! Já antes do fim-de-semana passado se percebeu que o governo não sabia como gerir o surto de novos casos de contaminação na região de Lisboa, o qual se prolonga desde o início do desconfinamento com uma média diária à volta de 320 do fim de Maio até ontem!

Além de não ser capaz de esconder as dúvidas sobre as causas e consequências deste surto em plena capital do país, a DGS mandou cancelar todas as cirurgias não marcadas com receio de novo estrangulamento do sistema de saúde. Não consta que tenha vindo atrás com essa medida preocupante. Ontem, o comité político e profissional que tem acompanhado a pandemia não foi capaz de tomar decisões. Segundo os media, o primeiro-ministro reuniu-se depois à porta fechada com os chamados especialistas mas também não foram capazes de tomar decisões sobre o que fazer. Aguardamos a reunião marcada para hoje. As informações esotéricas transmitidas entretanto à população não são fáceis de interpretar e, portanto, inquietam mais do que sossegam.

Reconheça-se que o problema não é fácil mas isso não só nos deixa ainda mais preocupados como mostra quão difícil é conciliar os riscos sanitários com o início de reabertura da economia. A suspensão da vida económica a nível nacional e internacional foi o preço pago pela relativa contenção da pandemia mas não a sua cura, para a qual se continua em busca de vacina. Em suma, o equilíbrio entre a continuação da infecção viral e a recuperação económica revela-se extremamente difícil de encontrar: de um lado espreita Cila e do outro Caríbdis, como tenho repetido.

Notoriamente, depois de ter despejado dinheiro que não tinha nos «buracos» que se abriram tanto entre os patrões como os assalariados, deitando a perder as poupanças orçamentais dos últimos quatro anos, o governo nos dirá hoje qual será o défice previsível já aberto, mas haverá infelizmente mais lá para a frente. Pelo seu lado, a Comissão Europeia acenou com milhares de milhões de euros mas ainda nada está decidido e muito menos qual será a verba final. Daqui até lá, teremos de pedir a quem empreste. A dívida, aliás, atingiu o seu máximo de sempre, enquanto perto de 50% do orçamento de Estado está comprometido com as reformas, pensões, segurança social e saúde pública!

Entretanto, restava ao governo a esperança do turismo – única hipótese de fazer entrar dinheiro rápido na economia e dar emprego a quem não tem outro mais bem pago – mas a abertura das fronteiras e a vinda em massa de britânicos sem passarem no controle sanitário são riscos acrescidos à contaminação interna e até externa. De resto, percebe-se que, no caso de a nossa situação sanitária não melhorar rapidamente, serão os próprios turistas a hesitar em vir…

Para lá do turismo e da extensão gradual à ruptura do resto da economia, nomeadamente a economia real de bens de exportação, a recuperação continua a estar dependente do consumo externo e da própria economia do transporte. Não importa fazer contas à quebra crescente do PIB em geral e, para as pessoas, o correspondente PIB per capita. Vai ser a perder até à vacina – se e quando esta surgir!

Toda a esquerda e muita direita que antipatizavam com a globalização económica e com a pretensa perda de independência em relação à UE, terão agora oportunidade de se regozijar com a quebra da economia liberal e com o proteccionismo à moda das ditaduras. Há mesmo quem já receie que o fechamento das economias e o intervencionismo estatal transformem esta crise gravíssima mas pontual numa nova crise financeira mundial. Seria a quarta vez desde o 25 de Abril, o que também não traria nada de bom à democracia.

Seja qual fôr, a evolução do país até ao começo do ano que vem não será de certeza um plano saído da cabeça de um «outsider» como o Eng.º Costa e Silva que nos salvará. Só ele e o primeiro-ministro é que não se aperceberam disso. Em contrapartida, uma equipa de profissionais do planeamento económico, liderada pelo antigo ministro Augusto Mateus, publicou dois documentos preciosos sobre «A crise económica da Covid-19». Aí começam por ser analisados todos os dados úteis sobre a dita crise económica ao mesmo tempo que são identificados os seus efeitos em cada sector, começando a abordar os diferentes modos de recuperação de cada um e aproveitando para explicar que o proceeso nada ter a ver com o «Plano Marshall» de que se fala… Recomendo tanto ao governo e aliados como às oposições!