Porque é que Trump destruiu a “ordem internacional” ao capturar o ditador Maduro, e George H. W. Bush não, quando invadiu o Panamá para capturar o ditador Noriega em 1989? Por duas razões: primeiro, porque para a histeria anti-trumpista, quando é Trump que faz uma coisa, essa coisa tem de ser o fim do mundo; segundo, porque demasiada gente esqueceu como o mundo era antes, e não percebe como o mundo é agora.
O mito que se criou é que, até ao dia 3 de Janeiro, vivíamos num mundo regulado por leis, em que a força de cada Estado era irrelevante. Desculpem, mas não era assim. A “ordem internacional” dependeu sempre da supremacia militar e económica das democracias ocidentais. As regras traduziam equilíbrios e concertos entre potências, mas sobretudo a auto-restrição que essas democracias se impuseram nas relações com outros Estados, porque o seu poder era tão grande, que se podiam permitir limitá-lo, sem receio pelos seus interesses. Mas quando estes estiveram em causa, fizeram valer a sua força, como os EUA em 1989. A lei internacional foi sempre a lei do mais forte.
No século XX, o mais forte foi o Ocidente. No século XXI, ainda é, mas em declínio relativo, o que encorajou o expansionismo dos seus inimigos. É muito provável que o Ocidente precise agora de recorrer à força mais vezes. Foi o que aconteceu aos EUA na Venezuela. O tirano Maduro destruiu as instituições e a economia do país, fez fugir 20% da população, e reduziu a Venezuela, com o seu petróleo, a uma colónia dos inimigos dos EUA: Irão, Rússia, Cuba, China, além dos cartéis da droga. Qual a obrigação de Trump enquanto presidente? Usar o seu poder para garantir a segurança e os interesses dos EUA. Como no Iémen em Março ou no Irão em Junho. Não se trata de mudar regimes (mas esperemos que mudem na Venezuela e no Irão), de ser cinicamente interesseiro, ou de tomar partido na discussão escolástica entre “idealismo” e “realismo”. Trata-se de defender “a república”. Foi sempre essa a “lei suprema”.
O problema é que nem todos os governos ocidentais estão em condições de cumprir o seu dever. É daí que vem a questão da Gronelândia. Como se atreve Trump a pôr em causa a soberania dos seus aliados? A resposta é: quando esses aliados demonstram já não ter capacidade de exercer soberania. Não é só não pagarem a própria defesa. É também não pagarem o seu Estado social, e terem-se convencido de que, renunciando às fronteiras, que em todo o mundo definem a soberania, arranjariam mais contribuintes. O caos migratório na Europa é uma abdicação de soberania sob todos os aspectos: criou bairros islâmicos onde a polícia não entra, e já determina a política externa europeia, como no reconhecimento da Palestina. A Europa recua: a França cedeu a sua influência em África à Rússia; a Grã-Bretanha entregou as ilhas Chagos a um aliado da China. Ninguém pode dar a Gronelândia como segura para o Ocidente. Não é Trump que ameaça a soberania europeia, mas a fraqueza dos regimes da Europa.
Trump é como Putin? Trump não nega a existência da nação venezuelana nem derrubou um presidente legítimo. Equiparar as democracias às tiranias, só porque as democracias também recorrem à força, é má-fé, ou idiotice. Iniciativas como a de Trump têm riscos? Têm. Não fazer nada, também. Mas há riscos que não existem. A tese de que a acção de Trump vai servir de exemplo a Putin é ridícula. Putin não precisou de exemplos para em 2014, perante a passividade ocidental, começar a destruição da Ucrânia. Se a China atacar Taiwan é porque tem poder para isso e porque o Ocidente não tem poder para a dissuadir, não é porque Trump prendeu Maduro. Culpar Trump pelo facto de o século XX ter acabado e estarmos agora no século XXI não nos levará muito longe.