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Não. Não me venha com mais um discurso motivacional. Não me venha falar sobre aprendizados, sobre lições desse período ou sobre crescimento pessoal. Sim, eu também já tentei ir por esse caminho, mas, olha, já não consigo mais. Só tenho vontade de mandar tudo à merda, me deitar no sofá e deixar que seja o que Deus quiser. Por favor, não me peçam mais do que isso.

Acabou a minha paciência para o pessoal da positividade, da profunda auto-análise e do arco-íris persistente. Reconheço o valor, mas, honestamente, dispenso. Porque a verdade é que está tudo uma bela de uma droga. As pessoas continuam morrendo, a gente continua com medo, nossa vida continua sendo uma cópia barata e mal feita do que ela foi em outros tempos.

Ok, o Biden ganhou. Ok, o Marcelo foi reeleito. Ok, a popularidade do Bolsonaro caiu. Mas ainda assim. O passivo que o Trump deixa no mundo vai levar anos para ser consertado. A extrema-direita estúpida e truculenta levou quase meio milhão de votos nas eleições presidenciais de Portugal. E, apesar das mais de 220 mil mortes de Covid por evidente negligência do governo, o impeachment de Bolsonaro ainda parece muito pouco credível.

Não, não me venha com conversas de good vibes ou de “vai ficar tudo bem”. Não vai. Pode ficar menos pior do que está agora. Mas… tudo bem? Tudo bem não vai ficar, sejamos sensatos. Os mortos não levantarão dos túmulos (e se levantarem, acho que também não será um bom sinal), a economia não irá se reerguer tão cedo e os danos psicológicos em todos nós já são realidades.

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Li, outro dia, um artigo sobre os mais jovens e o confinamento, no qual um adolescente disse que há um ano não se apaixona. Foi das coisas mais tristes que li desde começou tudo isso. Porque adolescentes desapaixonados são sintomas gritantes de um mundo doente. Ninguém se apaixona de verdade por Instagram ou TikTok. E o que restou para eles além disso?

Então, por favor, não. Não me venham com falsas conversas agradáveis. Não me venham com mais uma porcaria de uma receita de pão saudável caseiro ou com mais uma ideia brilhante de como meditar no meio de um raio de uma sala que também virou escritório e também virou playground e também virou sala de pilates. Já não tenho saúde para isso.

O estrago está feito. Só me deixe curtir essa fossa em paz. É importante admitirmos o tamanho do problema. E ficarmos transtornados, às vezes, faz parte. E estar um tanto ou quanto raivoso não pode ser moralmente inaceitável. Pelo menos, não agora. Moralmente inaceitável, para mim, é ficar caçando borboletas quando nossas casas estão cheias de morcegos. Lidemos com os morcegos. Façamos até uma certa amizade com eles. Mas não finjamos que nossas sombras são borboletinhas amarelas.