O abalo das eleições legislativas de Maio foi tão grande, que a oligarquia política não resistiu a lançar uma mão enganadora às autárquicas de Outubro. Quer-nos agora convencer que afinal nada aconteceu em Maio e tudo está como antigamente. O PS não é o terceiro partido da Assembleia da República, mas o segundo maior partido em presidências de câmara, depois do PSD. O Chega não é um partido com 60 deputados, mas apenas um partido com 3 presidentes de câmara. O velho “bipartidarismo” está, portanto, de excelente saúde. Para confirmar a ilusão, os comentadores do regime reformaram até a condescendência com que falam do mundo autárquico. Habitualmente, é com os dedos a apertar o nariz que aludem a um pantanal provinciano e piroso de rotundas supérfluas e de “dinossauros” que saltam entre concelhos e partidos. Agora, foi com os olhos húmidos que se entusiasmaram com a sétima esfera da “política de proximidade” e dos “homens bons” da nação. As legislativas foram apenas espuma. As autárquicas é que deram a verdadeira medida do sentir do país.
É verdade: houve também quem notasse que o Chega quadruplicou a votação autárquica de 2021 e que só não ganhou mais presidências de câmara por umas centenas de votos. Mas esse não é o ângulo mais interessante. O ângulo mais interessante é que PS e PSD, apesar de ainda controlarem câmaras municipais e juntas de freguesia, isto é, o aparelho de Estado local e as suas verbas do PRR, não conseguiram usar esse poder para impedirem um partido recente e tratado como um inimigo público por toda a classe jornalística de se tornar o segundo maior partido na Assembleia da República. Se os velhos partidos têm tanta implantação local, se são tão próximos da população, se compreendem tão bem o país e o país tem tanta estima por eles, porque é que falharam em Maio? Estavam então distraídos, e voltaram agora a estar atentos? Visto assim, o resultado destas eleições de Outubro devia deixar os fãs do velho sistema partidário ainda mais preocupados. Parece que o poder em Portugal já não pode o que podia.
Iluda-se quem quiser. Não, o velho sistema partidário não está bem. Como podia estar, depois de os governos do PS, com a colaboração da restante esquerda e com oposições quase sempre tíbias do PSD, sujeitarem o país às maiores rupturas, decepções e incertezas da sua história recente? Puseram-nos, tolhidos de impostos e regulações, a empobrecer relativamente, de modo que o PIB per capita português, que equivalia a 50% do americano em 2010, equivale hoje a 33%. Aboliram as fronteiras, quadruplicando a população residente estrangeira em apenas 7 anos, para 1,5 milhões. Importaram o wokismo americano, para negar as identidades e os valores que são a base da coesão da sociedade portuguesa. Que admira que o conjunto dos partidos históricos (PSD-PS-PCP-CDS-BE) descesse de 80,8% dos votos em 2022 para 59,5% nas legislativas deste ano, o valor mais baixo desde 1975? Não foi o “populismo” dos novos partidos. Foi a falta de visão, o erro e a incompetência dos antigos.
O velho sistema partidário, culpado da crise, não se deveria julgar seguro nas autarquias. Depende aí de grupos locais, capazes de lhes levar os votos e as câmaras quando mudam de partido, como agora Maria das Dores Meira fez ao PCP em Setúbal. A aparente força do PSD e do PS significa apenas que os políticos locais ainda acham conveniente usar as cores dos velhos partidos, porque são estes que mandam no governo, e é do governo que o poder local depende num dos Estados mais centralizados da Europa e que menos recursos disponibiliza às autarquias. Se um dia o “bipartidarismo” perder o governo, não se aguentará nas localidades. Os pés do colosso bipartidário são de barro.