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Sexta-feira, no Público, o líder parlamentar do Bloco de Esquerda assina um artigo de opinião sobre a situação corrente na Venezuela. Nele, Pedro Filipe Soares remete o futuro do país para “eleições gerais livres” e “sempre pela via pacífica”, mas rejeita Juan Guaidó, considerando-o “um ator” ao serviço de Donald Trump.

Sem qualquer tipo de hipocrisia, simpatizo com o apelo feito pelo líder parlamentar do Bloco de Esquerda: é verdade que o povo venezuelano não deve ser um “peão esquecido” entre os equilíbrios da arena diplomática. Num mundo em que a ordem ocidental vive uma crise de credibilidade, permitir a repetição de ingerências na América Latina seria uma machadada autoinfligida e pouco prudente. Mas gostaria de acrescentar que povo venezuelano também não deve ser um “peão esquecido” entre os caprichos ideológicos da nossa política interna.

Para o centro-direita, seria descortês ignorar o recente ensaio de moderação do BE, notavelmente exposto no editorial de hoje escrito por Ana Sá Lopes, em que se afasta de tal modo da esquerda ortodoxa que Pedro Filipe Soares termina o seu texto com críticas a um líder da União Soviética. Quiçá, agora que abandonaram a adolescência partidária, e eu sei bem o que custa chegar aos 20’s, consigam deixar a preferência por um debate político reduzido “à dualidade dos bons e dos maus, do ‘nós’ e ‘eles’”, como apontou o líder parlamentar bloquista.

Não duvido, meu caro Pedro Filipe, que a nossa democracia beneficiaria disso, tendo em conta que nos últimos anos foi assim que os senhores preferiam agir: os “neoliberais” contra “os trabalhadores”, a “austeridade” contra “os portugueses”, a Dilma contra o Temer, os polícias contra os negros, os privados contra o Serviço Nacional de Saúde. Talvez seja essa a revolução – ou a chegada à maioridade – do BE. O fim do maniqueísmo e a inauguração da ambiguidade. Em vez de ouvirmos “o Bloco contra Bruxelas”, escutamos Catarina Martins definir o partido como europeísta (mas diferente); em vez de vermos o Bloco ao lado de Maduro, damos por ele a pedir eleições livres (mas sem Guaidó).

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É, de facto, uma mudança. Mas será um progresso?

O ponto deste texto é que a ambiguidade, como o maniqueísmo, tem limites. Pedro Filipe Soares critica o “cinismo” da ajuda humanitária norte-americana, invocando justamente a ONU e a Cruz Vermelha, mas reproduz esse mesmo cinismo ao pedir “eleições livres” sem reconhecer o único rosto eleito com legitimidade para convocá-las. Perdoem-me a coloquialidade, mas é tão bizarro quanto cozinhar sopa insultando os legumes. Se o Bloco de Esquerda deseja verdadeiramente eleições na Venezuela, por que não apoia o político venezuelano que as defende? Reconhecer Juan Guaidó como “presidente-interino” – ou seja, como legítimo convocador de eleições – não equivale a declarar Guaidó presidente da Venezuela. É esse, aliás, o erro do Bloco em relação ao caso: dizem “nem Maduro, nem Guaidó” como se estivessem em campanha eleitoral e pudessem votar num ou noutro, mas o que está em jogo não é quem, é a Venezuela conseguir – ou não conseguir – eleições.

E é por isso, por tudo isso, que não entendo o porquê de Pedro Filipe chamar ‘golpista’ a um homem eleito pelos venezuelanos para a sua Assembleia Nacional.

Que golpe cometeu Guaidó, meu caro Pedro Filipe? Foi eleito para um órgão que Nicolas Maduro inconstitucionalmente destituiu? Reclamou liberdade num país tão faminto que se comeram os animais dos jardins zoológicos? Pediu paz para um povo que é perseguido diariamente por milícias? Pedro Filipe fala de um “bloqueio” no acesso da Venezuela “aos mercados” e eu pergunto-me, sinceramente, que mercados tem uma economia cuja desvalorização da moeda levou a que o dinheiro acabasse pesado em balanças de pastelaria?

Reconheço, até com algum alívio, que o Bloco de Esquerda de hoje não é igual ao Bloco de Esquerda de há vinte anos. Mas que fique claro: um democrata não pode ser ambíguo entre quem pede eleições e quem representa a manutenção de uma ditadura.