Que o espírito desta canção
Se levante livre e puro
E que te sirva de escudo
Um escudo contra o inimigo
Leonard Cohen, em “Lover, Lover, Lover”, canção escrita em 1973 para os soldados israelitas na guerra do Yom Kippur

Não ignoro que a recuperação do sionismo de Herzl, e o êxodo para a “terra prometida”, constituiu a solução possível para tantos dos sobreviventes da Solução Final. Não me esqueço que a hipótese dos “dois Estados” foi cinco vezes proposta por Israel e cinco vezes rejeitada pelos árabes do território, que só a partir de certa altura aceitaram a equívoca designação de “palestinianos” e que nunca aceitaram a existência do equivocamente chamado “Estado judeu” nas imediações. Não desvalorizo a circunstância de jamais ter sido Israel a iniciar a violência com os “palestinianos”, fosse a guerra “tradicional”, fosse a popular “intifada”, fosse o lançamento de foguetório sobre cidades israelitas, que sobretudo desde Gaza e desde há vinte anos é um desporto popular e literalmente rotineiro. Não me é indiferente que, descontadas as diferenças em capacidade bélica e tecnológica, uma das partes procure maximizar o número de vítimas civis e a outra procure minimizá-las em ambos os lados do muro. Não me é indiferente que uma das partes seja uma democracia, com as virtudes e os defeitos das democracias, enquanto a outra parte é um enclave terrorista, racista e genocida, com as virtudes e os defeitos dos enclaves terroristas, racistas e genocidas. Não me é indiferente que Israel integre um mundo no qual não me importo de habitar, e o Hamas e a Fatah representem uma considerável fatia do que me é repulsivo.

A benefício da conversa, vou fazer de conta que sim. Durante cinco minutos, fingirei acreditar na propaganda do Hamas, que os noticiários ocidentais reproduzem sem grande contraditório e as “redes socais” amplificam com grande alarvidade. Durante cinco minutos, tenciono descer ao nível mental dos maluquinhos que saem à rua com lencinho “fedayin” e admitir ser verdade que Israel está focadíssimo em eliminar “palestinianos” inocentes. E depois? Nem assim uma pessoa consegue responder à pergunta essencial, a saber: porque é que a opinião pública e publicada dedica ao conflito israelo-árabe a atenção, e a fúria, que não dedica às dezenas de conflitos sangrentos em curso na Terra?

Consulte-se a Wikipedia, que nos devolve a guerra do Tigré, na Etiópia (4 mil mortos só em 2020), a crise no Iémen (20 mil mortos em 2020), o conflito do Alto Carabaque (8 mil mortos em 2020), a insurgência no Magrebe (7 mil mortos), a rebelião do Boko Haram na Nigéria (8 mil mortos em 2020), a guerra civil síria (8 mil mortos em 2020), os confrontos no Mali (3 mil mortos em 2020), o Darfur (que acumula 300 mil mortos), a Papua Ocidental (um total de 400 ou 500 mil mortos), a barbárie étnica no Sudão do Sul (2500 mil mortos em 2020), o genocídio dos curdos pelos turcos (45 mil mortos até ver), a guerrilha no Uganda e no Congo (900 mortos em 2020), etc. Ninguém liga um chavo. Valha-me Deus: em Portugal mal são notícia os massacres de infiéis perpetrados por islâmicos em Moçambique, proverbial país irmão.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Aqui e lá fora, a opinião pública e publicada assemelha-se imenso ao Conselho de Direitos Humanos das Nações, que, ainda que os restantes 192 países resolvessem incentivar por lei a degolação de velhinhas, continuaria apenas a aprovar condenações a Israel. E não, não é por amor aos “palestinianos”, que em circunstâncias diferentes mereceriam do ocidental médio a indiferença que lhe merecem os sudaneses, os nigerianos, os curdos ou os moçambicanos. A opinião pública e publicada aprecia os “palestinianos” porque os “palestinianos” odeiam Israel.

A razão desta obsessão com Israel é Israel. Israel padece de um vício lamentável: está cheiinho de judeus, que evidentemente são há dois milénios responsáveis por cerca de 98,6% dos males da humanidade, contas por baixo. Para cúmulo, os judeus israelitas são a pior estirpe possível, aquela que possui meios para se defender de assassinos e não embarca ordeiramente para a fogueira ou as câmaras de gás. É um mito infame achar-se que o típico simpatizante da causa “palestiniana” não gosta de judeus. Nada disso. O anti-semita contemporâneo limita-se a detestar os judeus que não acatam com gentileza o destino que os seus inimigos lhes querem impor, em geral bastante negro. Além de cometer a desfaçatez de ser uma democracia cercada por tiranias e um símbolo de progresso rodeado de medievalismo, o problema de Israel é justamente o de servir os respectivos propósitos: um lugar onde os judeus vivam como cidadãos e não sob o regime do medo, como alvo latente ou explícito dos humores de próceres e populares. Graças a Israel, os judeus abandonaram o estatuto de vítimas fáceis que os oprimiu ao longo de séculos. Em 1948, a fundação de uma nação fundou também o judeu soberano, coisa praticamente inédita e certamente inaceitável.

Não tenciono discutir se o anti-semitismo que protesta a “agressão” a Gaza é herdeiro da crucificação, de Marx ou dos “Protocolos dos Sábios do Sião”. Os delírios de tarados não justificam o trabalho. Para o que importa, importa perceber que o anti-semitismo existe num pedaço razoável da famosa consciência colectiva, e que é velho, e medonho, e que enfrentá-lo depende bem menos de palavras bonitas do que da força de Israel. Que Israel tenha muita, e por muito tempo.