Um espectro paira sobre a nossa esquerda radical — o espectro do fim do Bloco de Esquerda. Todos os poderes se juntaram numa santa aliança para decretar esse fim, podcasts do Público e colunas de jornal, Daniel Oliveira e Helena Pereira, novos esquerdistas e velhos direitistas. Mas, para o radicalismo de esquerda, há um destino pior do que a extinção do BE: a divisão.
Se o Bloco se dividir, a esquerda radical estará a volta aos piores momentos do seu desastrado passado. Em tempos mais interessantes, José Pacheco Pereira fez a arqueologia deste fenómeno e explicou como, em 1960, ”o um se dividiu em dois” com a fratura entre o Partido Comunista Chinês e o Partido Comunista da União Soviética. A partir daí, durante décadas, não houve esperança de um regresso à unidade. A esquerda radical multiplicou-se em grupos e grupúsculos. Já tínhamos os leninistas, os estalinistas e os trotskistas (divididos por um picador de gelo) — passámos a ter também os maoistas e uma sucessão criativa de outros “istas” de inspirações diversas. Além do vetusto PCP, em Portugal tivemos a Frente de Acção Popular e o Comité Marxista-Leninista Português; tivemos o Partido Comunista Reconstruído, o PCP (ML) e o OCMLP; tivemos a Frente de Unidade Popular e, uns dias depois, a Frente de Unidade Revolucionária; tivemos o POUS e o PCTP/MRPP. E tivemos três agremiações que são as mais relevantes desta história porque mais tarde se uniram para criar o Bloco de Esquerda. Primeira: a Liga Comunista Internacional, trotskista, que se juntou ao PRT para formar o PSR (pouco depois o PRT saltou fora, mas, por favor, não façam demasiadas perguntas) e onde encontramos o grande guru Francisco Louçã. Segunda: a UDP, maoista de inspiração albanesa, que conseguiu eleger um deputado logo nas primeiras eleições democráticas, que tinha o seu próprio grande guru (o incontornável major Mário Tomé) e onde encontramos Luís Fazenda. Terceira: a Política XXI, que juntou antigos militantes do PCP e do MDP/CDE e onde encontramos Miguel Portas. Estes três ativistas políticos, juntamente com o então independente Fernando Rosas, acabaram com décadas de guerras, guerrilhas e guerrinhas e conseguiram, milagrosamente, unificar uma parte significativa da esquerda radical. Foi em 1999.
Nos seus melhores anos, o Bloco de Esquerda chegou a ter 19 deputados poderosos. Mas agora, tristemente, tem apenas um. Estamos, portanto, naquele perigoso momento da História em que, tal como aconteceu em 1960, “o um pode dividir-se em dois”.
Os exemplos lá de fora não são propriamente animadores. Em Inglaterra, neste momento, a esquerda radical mal consegue juntar-se para pedir um cappuccino com leite de soja, quanto mais para solidificar um partido. Tal como aconteceu com o BE em Portugal, os britânicos estão a tentar criar o Your Party partindo de uma troika: Jeremy Corbyn, antigo líder do Partido Trabalhista; Zarah Sultana, ex-deputada do Labour; e um grupo de quatro deputados conhecidos como “os independentes de Gaza” por não estarem ligados a nenhum partido e, tal como Mariana Mortágua, entenderem que a Palestina é o único tema relevante da política atual.
Estes tempos iniciais têm sido deprimentes: a fação de Jeremy Corbyn tentou impô-lo como o único líder do partido; a fação de Zarah Sultana insurgiu-se, lembrando que quando foi convidada para fundar o Your Party lhe prometeram a co-liderança e forçando uma votação interna a confirmar isso mesmo; a fação de Jeremy Corbyn tentou instalar um outro co-líder, Lutfur Rahman, que por infeliz fatalidade foi condenado por fraude eleitoral em 2015; a fação de Zarah Sultana acusou Corbyn que pretender criar “um clube de rapazes sexista” e lançou uma campanha de angariação de membros a 55 euros cada; e a fação de Jeremy Corbyn denunciou esta ação como sendo “não autorizada”. Enquanto tudo isto acontecia, os muito sectários militantes do novíssimo Your Party descobriram que os “quatro deputados de Gaza” não são, afinal, tão puros quanto eles. Com pânico, perceberam que eles não defendiam a imposição do IVA a escolas privadas. Com horror, constataram que eles não eram fãs incondicionais dos direitos transgénero. Com repulsa, aperceberam-se de que eles são (tapem o nariz) senhorios. Numa derradeira tentativa de os resgatar dessa odiosa condição, vários militantes e dirigentes do Your Party pressionaram-nos a venderem as suas casas e ficarem, assim, livres do peso materialista do capitalismo.
Os ingleses usam uma expressão certeira quando se cruzam com alguém que está numa situação difícil: “There but for the grace of God go I”. Imagino que, olhando para o Your Party, os dirigentes do Bloco suspirem: “Se não fosse pela graça de Deus, aqueles podíamos ser nós”. De facto, podiam — e ainda podem. Tendo em conta as mais recentes movimentações dentro do BE, é possível que, mesmo elegendo um líder católico como José Manuel Pureza, nem a graça de Deus os ajude.