Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Verão de 1971. Tenho 14 anos e pela primeira e única vez na vida a minha família passa férias numa pequena aldeia da costa alentejana onde tinham acabado de abrir umas simpáticas casas para alugar, mesmo em cima de praias ainda quase desertas: Porto Covo. Nesses dias lerei “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski, uma edição do recém-criado Círculo dos Leitores. As férias eram longas e recordo-as para situar o país de há 50 anos, sem qualquer nostalgia, mas com realismo.

Portugal vivia ainda a “Primavera marcelista”, pois a ilusão de que alguma coisa mudaria não se esfumara, mas eu não desconhecia o país pobre e atrasado que o Portugal de então. Um país que mesmo assim estava a mudar depressa – o liceu em que entrara, o Pedro Nunes, já deixara de ser apenas para elites e em breve teria de se desdobrar em dois turnos, os jornais noticiavam a inauguração da “maior doca seca do mundo” nos estaleiros da Lisnave em Almada e, verifico agora, 1971 foi um ano de rápido crescimento económico, mais de 10% (sim, mais de 10%, tal como em 1972). Havia mais dinheiro a circular pelo que começava a ganhar peso uma nova classe média, e isso notava-se.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.