O Partido Socialista está a cometer um erro de palmatória nestas eleições presidenciais. O apoio institucional envergonhado a António José Seguro, com algumas das principais elites dirigentes do partido a porem em causa a capacidade do candidato ou até mesmo a apoiarem outros candidatos de esquerda, é um erro que, a prazo, custar-lhe-á muito caro.

Porque é que considero isto um erro? Em primeiro lugar, existe hoje uma clara concentração de poder nas mãos do centro-direita e da direita. Nunca antes na história da democracia portuguesa, a direita concentrou tanto poder, indo de Belém a São Bento, passando pelas maiores e mais importantes câmaras municipais do país. Mesmo no tempo da maioria absoluta do PSD – quando Cavaco Silva tinha resultados extraordinários com os quais Montenegro nem sequer pode remotamente sonhar – a esquerda estava em Belém com o Dr. Soares, que, à altura, servia mesmo como contra-poder. Em segundo lugar, ao contrário das campanhas presidenciais anteriores, esta está verdadeiramente em aberto. Numa campanha eleitoral em que haja um vencedor pré-anunciado, é possível compreender que um partido esteja apático e com pouca vontade de gastar capital político para apoiar um candidato pouco querido. No entanto, nesta campanha eleitoral, tudo está em aberto. A mobilização do centro-esquerda, a começar pelas suas elites, daria certamente a Seguro uma possibilidade forte de disputar a passagem à segunda volta.

Não é a primeira vez que o PS enfrenta fraturas nas suas elites quando confrontado com uma campanha presidencial. Em 1986, Soares e Zenha dividiram o partido. Em 1996, Sampaio impôs a sua candidatura contra a vontade de Guterres. Em 2006, Sócrates persuadiu Soares a combater Alegre, um amigo de longa data. Em 2016, perante a inevitável vitória de Marcelo, Costa optou pela abstenção estratégica e deixou Sampaio da Nóvoa prosseguir isoladamente. Todavia, existe uma diferença decisiva no actual momento político.

Diferentemente de 1996, 2006 e 2016 – anos em que o PS estava confortavelmente sentado em São Bento – em 2026 os Socialistas enfrentam as eleições presidenciais partindo de uma base eleitoral de 23 por cento. É muito diferente perder a presidência estando solidamente enraizado em São Bento e com controlo alargado da máquina pública de poder, do que perder estando fora do governo e, pior ainda, não liderando sequer a oposição. Como é que a elite Socialista não compreende que, no momento actual, uma vitória em Belém seria um bálsamo indispensável para o partido e para a sua reestruturação política ao longo dos próximos anos?

A explicação para isto é, infelizmente, elementar: o elitismo dos dirigentes Socialistas. Muitas das elites do PS – depois de terem apoiado durante anos José Sócrates, um líder com profundas qualidades éticas e morais, como é público e notório – pronunciaram-se publicamente contra Seguro. Para elas, a elite Socialista forma-se meramente pela convivência nos centros de poder em Lisboa e por redes de mentoria que atravessam gerações. Seguro não é um descendente directo dessa genealogia interna. Apesar de ter liderado o partido, fê-lo sem o selo de “denominação de origem controlada”. Foi sempre visto como alguém sem pedigree, num partido muito mais socialmente elitista do que o PSD, onde a pertença simbólica pesa tanto quanto a competência formal.

Dentro da elite partidária, há sinais que identificam o «nós»: os mesmos liceus, as mesmas faculdades, as mesmas referências culturais, os mesmos corredores de poder, a mesma gramática interna. Seguro nunca internalizou esse código. Não passou pelos rituais de socialização política que criam confiança entre pares. Não era visto como alguém que fala a língua da elite, que compreende os mecanismos informais, que sabe quem conta realmente. Pelo contrário, Costa, com décadas de inserção nas redes certas – fez o estágio de advocacia no escritório de Vera Jardim e de Jorge Sampaio, depois de ter vindo ao mundo com acompanhamento obstétrico do pai de Manuel Pinho – era reconhecido imediatamente como insider. Seguro não. E quando se trata de liderar uma organização dominada por elites socialmente entrosadas, ser percebido como outsider é um pecado original do qual raramente há recuperação.

O verdadeiro drama é que a elite do PS não percebeu ainda uma verdade elementar: neste momento, esta elite precisa infinitamente mais de Seguro do que este precisa dela. Quando perder em Janeiro – e creio que perderá – Seguro regressará à vida privada e discreta que viveu durante os últimos dez anos, longe dos corredores do poder. Quando à elite do PS, esta, continuará presa ao seu próprio naufrágio. Continuará em declínio progressivo, desprovida dos mecanismos que outrora garantiam vitórias eleitorais, incapaz de renovação porque incapaz de reconhecer mérito fora das suas próprias fileiras. O erro de Seguro não foi ser incapaz. O erro foi da elite, ao não compreender que, quando se está à beira do abismo, é suicídio rejeitar a mão estendida apenas porque vem de quem não fala a sua língua.