Anda um espectro pelo Brasil — o espectro de Olavo de Carvalho, aquele a quem certos formadores de opinião denominam de ideólogo da direita (ou da “nova direita”) e da campanha de Jair Bolsonaro.

Mas afinal, quem é o filósofo Olavo de Carvalho?

Olavo de Carvalho nasceu em 1947 no Brasil, mas reside actualmente nos Estados Unidos da América, em Richmond (Virginia), a partir de onde transmite as aulas do Curso Online de Filosofia e os cursos avulsos do Seminário de Filosofia a milhares de alunos. O cineasta Josias Teófilo registou parte da sua rotina, e uma centelha do seu pensamento, no documentário “O Jardim das Aflições”, eleito o melhor filme da 21ª edição do Cine PE.

Saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros, Olavo é o intelectual — filósofo, escritor, educador, conferencista, analista político e jornalista — mais amado do Brasil e o mais odiado e difamado. Homens de vários horizontes intelectuais, como Jorge Amado, Miguel Reale, Arnaldo Jabor, Ciro Gomes, Roberto Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, Herberto Sales, Josué Montello e o ex-presidente da República José Sarney (entre tantos outros), já expressaram admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho.

Para ele, a filosofia não é um mero diletantismo, mas “a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa” — um trajecto que só termina com a morte. Observando os Diálogos de Sócrates, a “busca” não repousa numa certeza, mas numa confiabilidade máxima, resistente à prova. O processo que forma a unidade da técnica filosófica, tal como descrito por Louis Lavelle, no “Manuel de Méthodologie Dialectique“, traduz todas as operações que estão envolvidas na resolução dos problemas filosóficos, ou seja, na conversão dos conceitos gerais em experiência existencial efectiva e vice-versa. A técnica filosófica – inexistente nas universidades modernas — pode ser resumida em sete pontos:

  1. A anamnese pela qual o filósofo rastreia a origem das suas ideias e assume a responsabilidade por elas;
  2. A meditação pela qual ele busca transcender o círculo das suas ideias e permitir que a própria realidade lhe fale, numa experiência cognitiva originária;
  3. O exame dialéctico pelo qual ele integra a sua experiência cognitiva na tradição filosófica, e esta naquela;
  4. A pesquisa histórico-filológica pela qual ele se apossa da tradição;
  5. A hermenêutica pela qual ele torna transparentes para o exame dialéctico as sentenças dos filósofos do passado e todos os demais elementos da herança cultural que sejam necessários para a sua actividade filosófica;
  6. O exame de consciência pelo qual ele integra na sua personalidade total as aquisições da sua investigação filosófica;
  7. A técnica expressiva pela qual ele torna a sua experiência cognitiva reprodutível por outras pessoas.

Olavo é, portanto, um filósofo de tradição clássica (da turma de Sócrates, Platão e Aristóteles) que discursa com erudição tanto numa tonalidade escolástica como moderna.

O Seminário de Filosofia não é um lugar para quem busca um título académico, uma carreira ou a realização de um papel social. Para Olavo, “filósofo” não é uma profissão, mas uma vocação, tal como descrita por Antonin-Gilbert Sertillanges em “La vie intellectuelle; son esprit, ses conditions, ses méthodes”. A vida intelectual é uma missão de altíssima responsabilidade, seriedade e sinceridade. A busca da Verdade é o centro existencial que Olavo procura restaurar nos alunos — a unidade de vida. Como ele diz: “Ouvindo o que eu digo, quem é inteligente fica mais inteligente, quem é burro fica louco”.

A totalidade dos jornalistas e formadores de opinião, os meros leitores de posts e artigos e os apologistas do anti-olavismo — desconsiderando os alunos verdadeiros — desconhecem por completo a sua obra. Os “críticos” são, na sua maioria, pessoas que jamais leram um livro do autor, que nunca escreveram uma crítica ou uma obra própria a contrapor, que nunca absorveram o status quaestionis dos problemas em causa, mas se julgam aptos a condenar a sua pessoa, o seu pensamento, a sua filosofia (a Teoria dos Quatro Discursos, a Paralaxe Cognitiva, as Doze Camadas da Personalidade, a Mentalidade Revolucionária, o Intuicionismo Radical, etc.) e os seus alunos, como se estes nunca tivessem estudado nada mais senão a sua obra, e como se esta não estivesse montada sobre milhares de outras, aos ombros de gigantes. Na sua totalidade, são insensíveis às nuances do seu pensamento, não distinguindo as impressões do momento das opiniões fundamentadas e a qualidade dos vários tipos de discurso (poético, retórico, dialéctico e lógico ou analítico), onde a possibilidade, a verossimilhança, a probabilidade razoável e a certeza apodíctica são conceitos-chave.

Se “pelos frutos os conhecereis”, podemos dizer que Olavo é também um proeminente cientista político, qualidade que lhe valeu a hashtag #olavotemrazão em todas as recentes manifestações populares no Brasil.

Jair Bolsonaro e os seus filhos são leitores e admiradores de Olavo, mas o filósofo não é o ideólogo de cabeceira do candidato presidencial (como Aleksandr Dugin — com quem vitoriosamente debateu — é para Vladimir Putin), embora tivesse exercido uma influência significativa no rumo destas eleições. Formar uma elite de intelectuais capaz de enfrentar a hegemonia cultural instituída e politicamente aparelhada foi um dos seus objectivos. Integrando o sentimento de revolta popular contra o estamento burocrático, muitos dos seus alunos, leitores e admiradores tomaram as rédeas do poder, assumindo o exercício de diversos cargos políticos (por exemplo, a aluna e amiga Joice Hasselmann — entre tantos outros e outras — foi eleita como deputada federal, sendo a mulher mais votada do Brasil).

O filósofo Olavo de Carvalho não é ideólogo de ninguém. Ele não é agente político ou representante ideológico. Para ele, o círculo da hierarquia pessoal não se sobrepõe ao círculo da verdade — ele apenas responde perante o tribunal da Verdade. E a força da sua personalidade influenciou milhares de pessoas. Olavo busca a verdade de forma cruel com uma inteligência demolidora. Como declarou o doutor Ives Gandra Martins, um dos juristas mais conceituados do Brasil: “Olavo de Carvalho é o mestre de todos nós”.