Não me parece haver qualquer dúvida sobre o propósito político da Sumud Flotilla, e ainda bem que assim é. Toda a ação pública, especialmente quando procura chamar a atenção, tem um propósito político, e é desonesto dizer o contrário. A história está cheia de “flotilhas” movidas por causas, umas mais sinceras que outras, umas eficazes, outras meramente mediáticas. O que me surpreende não é o propósito, mas a tentativa de o disfarçar sob a capa da moral absoluta.
Prefiro, por isso, olhar para o moralismo e para os seus arautos. Aqueles que se veem a si próprios como embaixadores de uma “insurreição do bem” – convictos de que falam em nome da humanidade e contra todas as formas de opressão. Ora, a moral humana nunca foi absoluta. Como lembrava Nietzsche, cada valor nasce de uma cultura e de um tempo; o que é virtude em Atenas pode ser vício em Jerusalém. Acreditar numa revolução moral universal é ignorar que todos nós somos produto de uma aculturação histórica, regional e, inevitavelmente, crente.
Desconfio também dessa ideia de “revolução do bem”. Não existe um manual de boas vivências, nem árbitros profissionais que decidam quando vale a pena quebrar as regras, desde que seja “para o bem”. Kant acreditava que a moral devia ser universal, mas até ele reconhecia que o homem é falível e que o dever não se impõe pela força. O que vemos hoje é um moralismo performativo, quase litúrgico, em que o valor de um gesto é medido pela intensidade do grito, não pela coerência da ação. Diz-nos a personagem principal da Flotilha, Greta Thunberg, perdida entre um genocídio e o aquecimento global.
Escrever este texto é, inevitavelmente, um ato político. Mas é também um convite à crítica. A diferença entre um texto e um protesto é que o primeiro procura ser compreendido, o segundo muitas vezes só quer ser ouvido. Morrer eletrocutado numa catenária do Rossio ou partir uma montra em nome de uma causa não é heroísmo – é violência. A violência, mesmo quando travestida de moral, raramente ilumina.
Arendt dizia que o mal muitas vezes instala-se na banalidade dos gestos automáticos. Talvez o moralismo de hoje viva nessa banalidade, a de acreditar que o bem se grita, quando o verdadeiro bem, esse, pensa-se.