Comecemos já por lamentar que Jesus – esse lamechas, coração de manteiga, incapaz de compreender o bem supremo de cumprir a estrita lei mosaica, ‘glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores’ (Mt 11,19) e que muito claramente não sabia o que era bom para si próprio – não tenha tido os bons conselhos dos atuais católicos tradicionalistas, os que impediram que se chegasse a uma maioria de dois terços (apesar de perto) para que a Igreja, finalmente, reconhecesse a sua obrigação (sim, obrigação) de acolher os católicos recasados e os homossexuais.

Se Jesus tivesse tido os bons préstimos dos atuais católicos conservadores, os Evangelhos estariam limpos daquelas histórias mal avisadas que Jesus congeminou. Vejam por exemplo o disparate da parábola dos trabalhadores da vinha. Onde já se viu o dono da vinha (i.e., Deus) recompensar da mesma forma os conscienciosos e esforçados que trabalharam todo o dia e os mandriões que só trabalharam uma hora? Onde já se viu um Deus que dispensa o mesmo amor e a mesma misericórdia aos que cumprem escrupulosamente e aos que apenas aparecem para dar um ar de sua graça? E mais uma: o que é isso do Deus-dono-da-vinha sair ele próprio para angariar trabalhadores? Um Deus que vai à procura incansavelmente dos que acedem vir para a sua vinha trabalhar em vez de ficar confortavelmente sentado esperando que lhe venham implorar por trabalho, fazendo entrevistas difíceis (Em que vinhas já trabalhou e por quanto tempo? Quantos cestos de uva apanha por hora? E etc.) e regateando o salário? Que ideia mais desaparafusada.

E o que dizer então da parábola do filho pródigo? Há um livro muito curioso que o padre Henri Nouwen escreveu a partir de meditações sobre o quadro O Regresso do Filho Pródigo de Rembrandt (o livro tem o mesmo nome). Evidentemente a parábola não é sobre o filho, é sobre o Pai que acorre a acolhê-lo mal o vislumbra ao longe, festeja o seu regresso e nem quer ouvir desculpas ou promessas e nem lhe exige garantias de bom comportamento futuro; basta-lhe saber que o filho quer estar com ele. (Tal qual a Igreja atualmente com quem tem família não reconhecida num casamento católico ou é homossexual, não é?)

Este pai do pródigo é nova representação do Deus misericordioso que Jesus – essa pessoa meio destrambelhada que contava histórias estranhas de um pastor que deixava imensas ovelhas ordeiras para ir buscar (repito: buscar) a ovelha que se tinha perdido – nos quis deixar. Nouwen faz uma curiosa análise do irmão mais velho do pródigo. Aquele que sempre se portou exemplarmente, cumpriu as regras todas do seu pai e acabou a ver o destemperado do irmão mais novo acolhido em grande festança, em vez de ser punido e obrigado a penitência longa e a expiação dolorosa antes de ser, depois de um período de tempo que embaraçasse como rápido o luto confuciano, aceite. E também só após abundantes provas de estar em condições de merecer a confiança – q.b. – da gente de bem. O filho mais velho que não aceitou que o seu bom comportamento não valesse mais do que o pedido de perdão do celerado do irmão mais novo.

E as questões dos tradicionalistas são estas do irmão mais velho. Não são nenhuma defesa da tradição da Igreja. Desde logo porque nada garante que a tradição da Igreja esteja conforme ao que Jesus nos propôs – é só pensarmos que durante séculos foi tradição da Igreja ser governante terrena de um país (os estados papais italianos), matar hereges e infiéis (inquisição e cruzadas lembram alguma coisa?) ou vender indulgências aos pecadores com dinheiro. Tudo tradições que a Igreja abandonou no seu caminho de aperfeiçoamento. E, reconheça-se, muitas vezes abandonou-as contrariada, empurrada de fora. Assim mais ou menos como os católicos conservadores agora se queixam que a Igreja se vai render aos novos costumes sociais e sexuais, correndo o perigo de se esboroar se a isso aceder. Como se fosse a primeira vez que os crentes rebocassem a Igreja.

E os tradicionalistas também não defendem bem a tradição. Quando a tradição é sinónimo de maior proximidade entre Deus e os católicos, naquela parte da relação que é intermediada pela Igreja, aí a tradição já não é bem o que era. Veja-se a recusa da Igreja conservadora da comunhão sob as duas espécies na missa (i.e., tanto de hóstia como de vinho, de Corpo e Sangue). Era a usada na Igreja dos primeiros séculos, pelo que mais tradicional não há. Mas como implica uma relação mais distendida entre a Igreja e os católicos, como é uma inovação – essa mania satânica da novidade – há que ser recusada vigorosamente.

Jesus mostrou-nos que nos salvamos por Graça Divina e por Jesus ter dado a vida para redimir os nossos pecados. Mas há quem na Igreja considere que se salva se se portar bem e conseguir, por mérito próprio, comprar a salvação. Rezando para que Deus não note o imenso orgulho e o desamor para com aqueles que veem como mais fracos e pecaminosos e querem excluir de uma plena integração na Igreja, como se uma vida sexual fora de um casamento fosse mais grave do que não acolher incondicionalmente – como Jesus – quem está em sofrimento (um exemplo).

Deus ama todos e cada um e a Igreja deve ser diversa para acolher os que gostam de regras mais estreitas e caminhos mais difíceis, os que vivem com permanentes dúvidas sobre a sua fé, os que apreciam ambientes boémios e hippies, os racionais, os afetivos, os que gostam (sim, gostam) de reprimir prazeres, os que gostam de lhes ceder – os que nos lembrarmos. Deus não descansa enquanto não tocar a todos. E – como me disse um querido amigo jesuíta uma vez – nos dois lados, conservadores e progressistas (designações detestáveis, já agora), há santos. Mas isto vale para todos os lados e os tradicionalistas não podem impor ao resto da Igreja a sua visão inflexível e castigadora da Fé, da Igreja e de Deus, assente em inúmeros documentos produzidos no Vaticano e por teólogos conservadores mas ausente dos Evangelhos.

Para terminar, deixo aqui a minha opinião. Que por acaso não é bem minha, foi verbalizada há uns dias pelo Geral da Companhia de Jesus, o Padre Adolfo Nicolás. ‘Pode existir mais amor cristão numa união canonicamente irregular do que num casal casado na Igreja’. E eu acrescento: o amor (e não precisa de ser platónico) de um homem por outro homem também pode estar inundado de amor cristão.